03/01/10

Maria Eugénia Cunhal

Assinalando os 50 anos da Fuga de Peniche, o Diário de Notícias publica hoje uma interessantíssima entrevista com a poetisa Maria Eugénia Cunhal.


Trata-se dum depoimento de profundo valor humano e histórico que merece ser lido.


Registe-se, no entanto, a infeliz escolha do subtítulo «Os políticos actuais não têm estatura», quando o que a entrevistada disse foi:
"Não é por serem de hoje ou serem de ontem, é por serem os políticos que são. Acho que não é pela época que os políticos têm uma estatura e depois a deixam de ter, mas sim pelas pessoas que são e por aquilo que fazem pelo seu povo ou não fazem."
POEMA DE MARIA EUGÉNIA CUNHAL
SPARTACUS

Em cada hora
Em cada dia
Século após século
os homens arremessam o teu nome ao vento
e dele saem dardos, punhais, espadas
e dele saem pombas e flores ensanguentadas
De cada letra um filho
De cada som um eco
Teu nome-profecia
Teu nome vinho-novo
que ao terceiro dia há-de ressuscitar
nas veias do meu povo
Teu nome
que mil vezes tem sido agrilhoado
Teu nome sangue-mel
nos lábios do carrasco uma esponja de fel
Teu nome-escravo
Teu nome-espectro
fantasma de terror na noite de algozes
temido como as vozes que clamam no deserto
Teu nome-salmo
escrito em cada corpo morto
em cada cruz erguida
Teu nome-espiga
que se transforma em pão
Teu nome-pedrada construção do mundo
que será o fruto do teu gesto
Teu nome
em cada gesto do esvoaçar das asas
da gaivota presa
Teu nome
vela-acesa na catedral da esperança
do altar-homem
Teu nome
em cada grito
em cada mão
Teu nome-sinfonia
que há-de explodir com a alegria
de um átomo liberto
Spartacus!
Teu nome-irmão.

In “As Mãos e o Gesto”
Editorial Escritor

1 comentário:

Graciete Rietsch Monteiro Fernandes disse...

Obrigada Eduardo pela maravilhosa entrevista que me deu a oportunidade de ler e pelo também maravilhoso poema de Eugénia Cunhal. Quanto aos jornalistas já sabemos o que são. Conseguem alterar o sentido do que é dito quando lhes convém.
Um beijo para os três e parabens pelo seu blog. É muito bom.