09/09/11

A FESTA




Aqui ficam apenas quatro fotografias da Festa do Avante! de 2011.
São uma muito pequena amostra das dezenas de fotografias, videos e testemunhos que podem ser vistos em muitos sítios da internet, mas são silenciados pela comunicação social controlada.
Esta é a festa que, ano pós ano, os donos dos jornais sentem necessidade de esconder e deturpar. Quando a referem, tentam passar a mentira de que se trata dum evento rotineiro, promovido por um pequeno partido ultrapassado no tempo, um mero «festival de verão», visitado por alguns grupos de jovens despolitizados que lá vão apenas pelo divertimento.
A Festa do Avante! assusta-os e sabemos porquê...
O seu medo recorda-nos aquele espectro de que fala o primeiro parágrafo do Manifesto.

29/08/11

Paris 2011

PARIS, Praça da Bastilha, à frente da Ópera da Bastilha, 20 de agosto de 2011, 13h 52m.
Entre milhares de «sem abrigo» espalhados por toda a cidade, a esta família calhou este lugar.
222 anos depois de 1789, é isto a cidadania?...


O TEMPO DAS CEREJAS 2

Solidário com o autor do blogue «O TEMPO DAS CEREJAS», publico aqui a ligação para o novo «O TEMPO DAS CEREJAS 2». Ao Vítor Dias desejo que, tão rapidamente quanto possível, consiga recuperar do roubo de que foi vítima e o seu trabalho possa retomar a qualidade que o caraterizava.

 Ligação na imagem

06/06/11

Porquê hoje?


Nem sei por que razão me apeteceu publicar hoje este quadro, pintado por Jacques-Louis David, em 1787...
É uma obra de óleo sobre tela com 129,5cm por 196,2cm e pertence ao Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque.
Chama-se «A Morte de Sócrates».

04/06/11

MÃOS DE MAIO

No dia 5 de Junho
MÃOS DE MAIO  votam CDU
Para ouvir o fado de José Manuel Osório e ver o video, clicar na imagem do boletim de voto.

21/05/11

Espiral - poema de Mia Couto

Acaba de chegar da Cantábria a feliz notícia do nascimento do Imanol.

Para ele, aqui fica um poema de Mia Couto.
ESPIRAL
No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.
Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.
Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.
Mia Couto

20/05/11

Sindicato dos Professores do Norte

Razões profissionais relacionadas com a proximidade do fim do ano lectivo têm-me limitado o tempo livre e impossibilitado de publicar aqui.
Entretanto, divulgo o sítio da lista A candidata aos corpos gerentes do SPN

02/05/11

A indignação de Unamuno

Hoje, ao longo de todo o dia, recordei a indignação de Miguel de Unamuno perante os gritos selvagens de «VIVA LA MUERTE!», urrados pelo general fascista Millán Astray, na Universidade de Salamanca, no dia 12 de Outubro de 1936.


Hoje, gritos de «VIVA LA MUERTE!» ecoaram pelos noticiários de todo o mundo e pelas declarações de presidentes e ministros, que se dizem democratas, mas revelaram a sua face mais bárbara.


Exultaram com uma morte prepetrada, sem qualquer julgamento, por mercenários a mando da mesma potência que, há alguns anos, usou os serviços do agora executado.


Há 75 anos, perante os gritos de «VIVA LA MUERTE!», Unamuno respondeu:


"VENCEREIS PORQUE TENDES SOBRADA FORÇA BRUTA. MAS NÃO CONVENCEREIS, PORQUE CONVENCER SIGNIFICA PERSUADIR. E PARA PERSUADIR NECESSITAIS DE ALGO QUE VOS FALTA: A RAZÃO E O DIREITO NA LUTA" .

01/05/11

A Barca dos Sete Lemes


A partir do momento em que, por volta dos meus quinze anos, descobri «Gaibéus» e, através de «Gaibéus», descobri a leitura (conforme já contei aqui) comecei a ler, prefencialmente, obras dos escritores ligados ao Neo-Realismo. Nos anos seguintes, li dezenas de obras dos portugueses Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, José Gomes Ferreira, bem como de autores lusófonos com afinidades temáticas, como o angolano Luandino Vieira e os brasileiros Garcilano Ramos, Eurico Veríssimo e o inevitável Jorge Amado.



Apesar da minha memória ser tão fraca que me permite encontrar surpresas em segundas e terceiras leituras dos mesmos livros, ficou-me, desde essa altura, a ideia de que um desses muitos livros tinha provocado em mim uma impressão muito especial. Trata-se do romance «A Barca dos Sete Lemes», de Alves Redol.



O livro está completamente esgotado no actual mercado livreiro, onde quase todos os espaços e atenções das livrarias são absorvidos pela literatura efémera que “vai vendendo mais ou menos”. Aliás, julgo não cometer grande injustiça se afirmar que, de todos os autores que acima referi, apenas Jorge Amado e Soeiro Pereira Gomes são devidamente acarinhados pelas suas editoras, ainda que por razões bem diversas.



Há algumas semanas, em vésperas de ir a Vila Franca de Xira para visitar o Museu do Neo-Realismo, decidi voltar a navegar nesta barca de Redol. Depois de muito procurar, desci à deslumbrante cave do alfarrabista «Chaminé da Mota» e comprei (por sinal, barato) um exemplar da edição de capa dura produzida pelas Publicações Europa-América em 1972.



Desta releitura, feita mais de trinta anos depois, saí com a confirmação de que, tal como senti na primeira leitura, «A Barca dos Sete Lemes» é um inequívoco desmentido aos que acusam o Neo-Realismo de esboçar personagens lineares, esquematicamente positivas ou negativas, condicionadas de forma mecânica em função de posicionamentos socias ou de opções políticas.



Conforme escreve Alexandre Pinheiro Torres, no prefácio, o título poderia ser «A Arte de Transformar um Homem do Povo num Carrasco». Ao longo da sua existência, Alcides voga de situação para situação, como uma barca à deriva, empurrado pelas circunstâncias e pelas pessoas com poder. Em cada uma das voltas da vida, recebe novas alcunhas – de Menino Jesus a Chacal - e vão-lhe sendo atribuídos novos papeis de executante de acções cada vez mais repulsivas e violentas.



Escavando numa personalidade em conflito consigo mesma, por baixo das atitudes do incendiário, do assassino, do criminoso de guerra da Legião Estrangeira, do potencial bufo da Gestapo na França ocupada, Redol consegue fazer aflorar o ser humano; um ser humano intrincadamente contraditório que lança gritos silenciosos de apelo a uma afectividade sempre frustrada. Como diz o autor, “limitei-me à história de um homem de sete alcunhas, cuja vida me sugeriu uma barca desnorteda num mar de tempestade” (p.56).



Os capítulos em que se desenvolve a acção da narrativa alternam com capítulos – designados, justamente, por «os gritos silenciosos» - nos quais a personagem biografada dialoga com o narrador-autor, contando-lhe a sua vida e pedindo-lhe que a escreva porque “as coisas escritas ficam mais importantes” (p. 299). Nesses diálogos sobressaem os conflitos duma personalidade violenta e violentada, mas sobressai, também, o processo pelo qual o narrador-autor vai assimilando a personagem, atribuindo-lhe sentimentos e pulsões irreprimíveis.


Para mim, «A Barca dos Sete Lemes» continua a ser um dos livros de referência. Um romance a merecer reedição, neste ano que é o ano do centenário do nascimento de Alves Redol.

25/04/11

A Mesa dos Quatro Abades



A Mesa dos Quatro Abades é uma antiga tradição de Ponte de Lima, à qual existem referências documentais desde, pelo menos, 1775.


No terceiro domingo de Junho, os párocos das freguesias de Bárrio, Calheiros, Cepões e Vilar do Monte reuniam-se, em torno de uma velha mesa de pedra, para debater os problemas das quatro freguesias vizinhas e comiam um almoço em comum. É provável que, no fim, cada um deles dissesse o tradicional: «Comi como um abade!»


A velha mesa e os bancos de pedra ainda lá estão, num local onde se reunem caminhos provenientes das quatro freguesias. Desde 1988 a tradição foi retomada, mas o almoço é, agora, partilhado pelos presidentes das quatro juntas de freguesia.


Lembrei-me da Mesa dos Quatro Abades, hoje, dia 25 de Abril de 2011, quando a televisão me trouxe abundantes reportagens duma celebração que teve lugar no Palácio de Belém. Pareceu-me ver os quatro velhos abades, paternalmente preocupados com os problemas da paróquia, pregando a passividade ao rebanho e prescrevendo penitências aos seus paroquianos.


Nenhum daqueles quatro abades se reconhece, nem um bocadinho, responsável pelas opções que, ano após ano, levaram o país até à situação presente. No entanto, todos eles souberam louvar as virtudes da submissão e do sacrifício e souberam apelar a uma unanimidade bacoca, em torno da continuidade das políticas de que eles e os seus partidos foram executores.


Terminada a cerimónia pública, enquanto se dirigiam para o interior do palácio, pareceu-me imaginá-los a segredar uns para os outros: «Vamos continuar a comer como abades…»

24/04/11

25 de Abril, vivo também nas escolas

Encontrei este filme, cujas autoras não conheço, mas felicito.

Assim se prova que a memória do 25 de Abril também está viva nas escolas.

Apesar de tudo...


Onda


Cascais, 20/4/2011

22/04/11

CRISTO - CRISTOS



Cristo por Rembrandt, Rafael, Velázquez, Gauguin, Salvador Dali, Emil Nolde, El Greco , Rosa ramalho, Giotto, Andrea Mantegna, Miguel Ângelo, Chagall e Picasso.

Nesta época do ano, fala-se mais desta morte.

Tomemo-la como exemplo duma qualquer vítima de um qualquer império.

Uma entre milhões.

Até quando?

Para quando a ressurreição da humanidade?

14/04/11

Porque hoje é o dia 14 de Abril

DIA DA REPÚBLICA ESPANHOLA

As eleições Municipais de 12 de Abril de 1931 evidenciaram a clara maioria dos republicanos e constituíram uma histórica derrota dos monárquicos e da monarquia.

Dois dias depois, o rei Afonso XIII abandonou o poder e fugiu do país, embora sem abdicar do trono.



14 de Abril



Dolores Ibarruri

Discurso de despedida das Brigadas internacionais

... e quando a oliveira da Paz florescer...

10/04/11

Langston Hughes (1902-1967)

Mais um poeta americano que fiquei a conhecer ao reler «Nenhum homem é estrangeiro», de Joseph North.

O negro fala sobre rios

Conheço rios:


Conheço rios antigos como o mundo e mais velhos que o fluxo de sangue humano em veias humanas.


A minha alma tornou-se profunda como os rios.


Banhei-me no Eufrates quando as auroras eram jovens.


Construí minha cabana nas margens do Congo e ele embalou o meu sono.


Contemplei o Nilo e ergui as pirâmides a sombreá-lo.


Ouvi o canto do Mississippi quando Abe Lincoln desceu até New Orleans, e vi seu colo enlameado tornar-se ouro ao pôr-do-sol.


Conheço rios:


Antigos, cinzentos rios.


A minha alma tornou-se profunda como os rios.


Poema de Langston Hughes


Mais informação sobre Langston Hughes pode ser lida aqui.


Faz hoje 35 anos

Há dias, encontrei cá em casa este autocolante, recordação dum comíco inesquecível, realizado no Porto, no mesmo dia em que foi publicada a Constituição da República, que tinha sido aprovada oito dias antes.


Estávamos em campanha eleitoral e foi um grande comício num dia histórico.


03/04/11

80 anos do AVANTE! em S. Mamede Infesta


4 a 9 de Abril de 2011

Exposição comemorativa dos 80 anos do jornal Avante!, na Junta de Freguesia de S. Mamede de Infesta


Iniciativa de Comissão Concelhia de Matosinhos do PCP


A exposição é constituída por cerca de duas dezenas e meia de paineis sobre os 90 anos do PCP e sobre os 80 anos do jornal Avante!


Dia 4 de Abril – 21h30m – Inauguração com Porto de honra e lançamento do livro «Memórias dum tipógrafo clandestino».


Dias 5, 6, 7 e 8 de Abril – das 9h às 12h30 e das 14h às 17h30


Dia 9 de Abril (sábado) – das 9h às 18h


Dia 9 de Abril – 15h - Sessão de encerramento com tertúlia sobre experiências de luta clandestina e sessão de lançamento do livro «Vidas na clandestinidade».

Associação Conquistas da Revolução


Mais de uma centena de pessoas, civis e militares, marcaram presença, sexta-feira, na Casa do Alentejo, em Lisboa, num jantar de confraternização que constituiu a primeira iniciativa, com expressão pública, para a criação da Associação Conquistas da Revolução.


Henrique Mendonça, da Comissão Promotora da Associação, numa breve intervenção, sublinhou a importância de criar a Associação – que apresentou como «imposição patriótica» – e informou que a Associação conta já com «várias centenas de adesões».


Falou a seguir José Emílio da Silva, que relembrou alguns momentos marcantes do processo revolucionário, designadamente: a derrota do golpe de 11 de Março de 1975; a Assembleia do MFA que decidiu a criação do Conselho da Revolução; as tomadas de posse e a acção desenvolvida pelos IV e V governos provisórios, presididos pelo General Vasco Gonçalves e dos quais o próprio José Emídio da Silva foi ministro da Educação e Cultura; e «o avanço impetuoso para as conquistas da Revolução, que viriam a transformar profunda e positivamente Portugal – e que, posteriormente consagradas na Constituição da República Portuguesa, viriam a moldar a democracia de Abril».


O artigo pode ser lido na íntegra no Avante! de 31/3/2011.

27/03/11

Sócrates por William Hogarth

José Sócrates foi, hoje, eleito secretário geral do PS, com 93,3% dos votos.

O pintor, desenhador e humorista inglês Willliam Hogarth (1697-1764) já tinha retratado, em duas pinturas de 1755, toda a emoção do surpreendente acontecimento.

«An Election Entretainment» e «Charing the Member».


21/03/11

Carl Sandburg (1878-1967)

Neste Dia Mundial da Poesia, relendo «Nenhum Homem é Estrangeiro», de Joseph North, tomei contacto com um poeta americano que não conhecia: CARL SANDBURG
Aqui fica um poema.

A GRADE
Agora, a mansão à beira do lago já está
concluída, e os trabalhadores estão
começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.

Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
entrada de todos os famintos e vagabundos
e de todas as crianças vadias à procura de
um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
Amanhã.

Tradução: Carlos Machado in http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet098.htm

SOLIDARIEDADE COM O POVO LÍBIO

14/03/11

Lisboa - 19 de Março

A memorável jornada que, no passado sábado, levou às ruas de várias cidades centenas de milhares de pessoas de todas as idades, foi uma clara e incontornável manifestação de repúdio pela política de direita que, durante décadas de alternância entre PS e PSD/CDS, levou o país à situação presente.

Depois de 12 de Março, a luta pode ter assumido novas formas e uma nova dimensão. Pode...

Mas aquele enorme potencial pode, também, correr o risco de esvaziar-se como água na areia.

Há que converter aquela corrente de contestação em combate sem preconceitos.

É possível que muitas pessoas que, no sábado passado, se manifestaram pela primeira vez percebam agora as potencialidades de mudança que existem na luta das massas, mobilizadas e organizadas.

Estes recentes acontecimentos trazem-me à memória uma passagem da letra da Internacional:

Para não ter protestos vãos,

Para sair destre antro estreito.

Façamos nós por nossas mãos

Tudo o que a nós diz respeito!

O passo seguinte está bem próximo. É já no dia 19!

12/03/11

PCP - 90 anos

Hoje, 12 de Março de 2011, realizou-se, no edifício da alfândega do Porto, um comício comemorativo dos 90 anos do PCP, com a participação de Jerónimo de Sousa.
O comício foi antecedido dum concerto pela Orquestra Ligeira de S. Pedro da Cova e por um coro constituído por professores de Ovar e S. Pedro da Cova, que interpretaram, em conjunto, várias canções populares e heróicas.
Aqui ficam algumas fotografias e, mais abaixo, um filme com a interpretação do «Hino de Caxias».

08/03/11

Porque hoje é o dia 8 de Março

Assinalando o Dia Internacional da Mulher, transcrevo um pequeno excerto duma entrevista a Óscar Lopes, publicada em «Escrita e Combate - textos de escritores comunistas», edições Avante!, 1976, página 358:

"E as heroínas mais admiráveis da vida real?
Todas as que, de algum modo, representam revolta lúcida contra a ética da resignação e da passividade - isto já que de mulheres se trata, e a exploração do homem pelo homem principiou como exploração da mulher pelo homem."



Mulheres Protestando, Di Cavalcanti, 1941

Sobre o livro de que extraí a citação, refira-se que inclui poemas, contos e outros textos de Álvaro Magalhães, Armando Silva Carvalho, Baptista-Bastos, Casimiro de Brito, E. M. de Melo e Castro, José Saramago, Manuel da Fonseca, Maria Alzira Seixo, Maria Lamas, Maria Velho da Costa, Papiniano Carlos, Urbano Tavares Rodrigues... e muitos outros. Quase meia centena de autores...

O exemplar, que adquiri há pouco tempo num alfarrabista do Porto, é assinado por César Príncipe e Egito Gonçalves.

01/02/11

O meu «Gaibéus»

Há poucos meses, realizei uma interessante acção de formação, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com o tema «De pequenino nasce o leitor». O texto que a seguir se transcreve é a primeira parte do relatório crítico que produzi no fim do curso.


A leitura e os livros são omnipresentes no meu quotidiano. Acompanham-me todos os dias e ao longo de todo o dia. Antes de começar uma manhã de trabalho, ler ou escrever algumas páginas (de preferência não relacionadas directamente com a actividade profissional) constitui, mais do que um hábito, uma necessidade de indispensável higiene mental. Depois, durante o resto do dia, os livros estão sempre presentes, tanto no trabalho com os alunos como nos momentos livres. Não saio de casa sem que um deles me acompanhe, enquanto descanso no café, na fila do supermercado, nos tranportes públicos… Eles invadem todos os cantos da casa; correspondem sempre ao maior peso nas malas das férias; representam a fracção mais agradável do orçamento mensal.

Mas nem sempre foi assim. De facto, embora houvesse milhares de livros na casa onde vivia com a minha mãe, os meus irmãos e os avós maternos, e embora o meu irmão mais velho tenha sido, desde muito miúdo, um leitor compulsivo, eu considero-me um leitor tardio.

Tanto quanto me lembro, até aos quinze anos, eu fui um aluno com boas classificações escolares, mas raramente praticava a leitura nos tempos livres por iniciativa própria. Lembro-me de ter lido apenas alguns pequeninos livros de histórias editados pela Majora, algumas revistas de banda-desenhada das colecções «Mundo de Aventuras», «Falcão» e «Patinhas» e, mais tarde, três ou quatro livros juvenis. Recordo vagamente a leitura de uma biografia de Santa Iria, um livro sobre átomos, um outro da «Série 15» (Editorial Verbo) , um de aventura de Enid Blyton (colecção dos sete) e as primeiras páginas de «Huckleberry Finn».

A primeira leitura de que retirei verdadeiro prazer e da qual recordo as profundas emoções sentidas aconteceu só aos quinze anos, com um livro que pertencera ao meu pai. Esse momento constituiu uma experiência surpreendente e, a partir daí, nunca mais deixei de necessitar da companhia dos livros. É curioso que, na minha memória, eu identifico, com clareza, o momento exacto em que descobri o prazer da leitura; recordo a estante de onde retirei o livro, o sítio onde o li e a parte do dia em que isto aconteceu.

Conservo o objecto livro. Apropriei-me desse belo exemplar de «Gaibéus», de Alves Redol, com capa de Manuel Ribeiro de Pavia. Guardo-o com especial valor estimativo, como recordação da minha passagem pela estrada de Damasco da Leitura, objecto-símbolo duma nova dimensão da vida, que, através dele, me foi revelada.