27/03/11

Sócrates por William Hogarth

José Sócrates foi, hoje, eleito secretário geral do PS, com 93,3% dos votos.

O pintor, desenhador e humorista inglês Willliam Hogarth (1697-1764) já tinha retratado, em duas pinturas de 1755, toda a emoção do surpreendente acontecimento.

«An Election Entretainment» e «Charing the Member».


21/03/11

Carl Sandburg (1878-1967)

Neste Dia Mundial da Poesia, relendo «Nenhum Homem é Estrangeiro», de Joseph North, tomei contacto com um poeta americano que não conhecia: CARL SANDBURG
Aqui fica um poema.

A GRADE
Agora, a mansão à beira do lago já está
concluída, e os trabalhadores estão
começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.

Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
entrada de todos os famintos e vagabundos
e de todas as crianças vadias à procura de
um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
Amanhã.

Tradução: Carlos Machado in http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet098.htm

SOLIDARIEDADE COM O POVO LÍBIO

14/03/11

Lisboa - 19 de Março

A memorável jornada que, no passado sábado, levou às ruas de várias cidades centenas de milhares de pessoas de todas as idades, foi uma clara e incontornável manifestação de repúdio pela política de direita que, durante décadas de alternância entre PS e PSD/CDS, levou o país à situação presente.

Depois de 12 de Março, a luta pode ter assumido novas formas e uma nova dimensão. Pode...

Mas aquele enorme potencial pode, também, correr o risco de esvaziar-se como água na areia.

Há que converter aquela corrente de contestação em combate sem preconceitos.

É possível que muitas pessoas que, no sábado passado, se manifestaram pela primeira vez percebam agora as potencialidades de mudança que existem na luta das massas, mobilizadas e organizadas.

Estes recentes acontecimentos trazem-me à memória uma passagem da letra da Internacional:

Para não ter protestos vãos,

Para sair destre antro estreito.

Façamos nós por nossas mãos

Tudo o que a nós diz respeito!

O passo seguinte está bem próximo. É já no dia 19!

12/03/11

PCP - 90 anos

Hoje, 12 de Março de 2011, realizou-se, no edifício da alfândega do Porto, um comício comemorativo dos 90 anos do PCP, com a participação de Jerónimo de Sousa.
O comício foi antecedido dum concerto pela Orquestra Ligeira de S. Pedro da Cova e por um coro constituído por professores de Ovar e S. Pedro da Cova, que interpretaram, em conjunto, várias canções populares e heróicas.
Aqui ficam algumas fotografias e, mais abaixo, um filme com a interpretação do «Hino de Caxias».

08/03/11

Porque hoje é o dia 8 de Março

Assinalando o Dia Internacional da Mulher, transcrevo um pequeno excerto duma entrevista a Óscar Lopes, publicada em «Escrita e Combate - textos de escritores comunistas», edições Avante!, 1976, página 358:

"E as heroínas mais admiráveis da vida real?
Todas as que, de algum modo, representam revolta lúcida contra a ética da resignação e da passividade - isto já que de mulheres se trata, e a exploração do homem pelo homem principiou como exploração da mulher pelo homem."



Mulheres Protestando, Di Cavalcanti, 1941

Sobre o livro de que extraí a citação, refira-se que inclui poemas, contos e outros textos de Álvaro Magalhães, Armando Silva Carvalho, Baptista-Bastos, Casimiro de Brito, E. M. de Melo e Castro, José Saramago, Manuel da Fonseca, Maria Alzira Seixo, Maria Lamas, Maria Velho da Costa, Papiniano Carlos, Urbano Tavares Rodrigues... e muitos outros. Quase meia centena de autores...

O exemplar, que adquiri há pouco tempo num alfarrabista do Porto, é assinado por César Príncipe e Egito Gonçalves.

01/02/11

O meu «Gaibéus»

Há poucos meses, realizei uma interessante acção de formação, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com o tema «De pequenino nasce o leitor». O texto que a seguir se transcreve é a primeira parte do relatório crítico que produzi no fim do curso.


A leitura e os livros são omnipresentes no meu quotidiano. Acompanham-me todos os dias e ao longo de todo o dia. Antes de começar uma manhã de trabalho, ler ou escrever algumas páginas (de preferência não relacionadas directamente com a actividade profissional) constitui, mais do que um hábito, uma necessidade de indispensável higiene mental. Depois, durante o resto do dia, os livros estão sempre presentes, tanto no trabalho com os alunos como nos momentos livres. Não saio de casa sem que um deles me acompanhe, enquanto descanso no café, na fila do supermercado, nos tranportes públicos… Eles invadem todos os cantos da casa; correspondem sempre ao maior peso nas malas das férias; representam a fracção mais agradável do orçamento mensal.

Mas nem sempre foi assim. De facto, embora houvesse milhares de livros na casa onde vivia com a minha mãe, os meus irmãos e os avós maternos, e embora o meu irmão mais velho tenha sido, desde muito miúdo, um leitor compulsivo, eu considero-me um leitor tardio.

Tanto quanto me lembro, até aos quinze anos, eu fui um aluno com boas classificações escolares, mas raramente praticava a leitura nos tempos livres por iniciativa própria. Lembro-me de ter lido apenas alguns pequeninos livros de histórias editados pela Majora, algumas revistas de banda-desenhada das colecções «Mundo de Aventuras», «Falcão» e «Patinhas» e, mais tarde, três ou quatro livros juvenis. Recordo vagamente a leitura de uma biografia de Santa Iria, um livro sobre átomos, um outro da «Série 15» (Editorial Verbo) , um de aventura de Enid Blyton (colecção dos sete) e as primeiras páginas de «Huckleberry Finn».

A primeira leitura de que retirei verdadeiro prazer e da qual recordo as profundas emoções sentidas aconteceu só aos quinze anos, com um livro que pertencera ao meu pai. Esse momento constituiu uma experiência surpreendente e, a partir daí, nunca mais deixei de necessitar da companhia dos livros. É curioso que, na minha memória, eu identifico, com clareza, o momento exacto em que descobri o prazer da leitura; recordo a estante de onde retirei o livro, o sítio onde o li e a parte do dia em que isto aconteceu.

Conservo o objecto livro. Apropriei-me desse belo exemplar de «Gaibéus», de Alves Redol, com capa de Manuel Ribeiro de Pavia. Guardo-o com especial valor estimativo, como recordação da minha passagem pela estrada de Damasco da Leitura, objecto-símbolo duma nova dimensão da vida, que, através dele, me foi revelada.

25/01/11

SÓNIA DELAUNAY (1985 - 1979)

Pintora francesa de origem russa, Sara Stern nasceu em Gradizhsk (Ucrânia), em 1885.
Em 1910, casou em segundas núpcias com o pintor francês Robert Delaunay, um dos precursores da pintura abstracta, e adoptou o nome de Sonia Dalaunay.
Sonia realizou em 1911 as primeiras obras abstractas, sendo considerada uma das mais representativas artistas desta corrente.
Fugindo da Iª Guerra Mundial, o casal Delaunay veio viver, juntamente com o filho Charles, para Vila do Conde entre o Verão de 1915 e inícios de 1917, numa casa a que chamaram La Simultané. Aí aprofundaram a amizade com os pintores modernistas Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros e, sobretudo, Eduardo Viana, que claramente influenciaram.
Esse período de ano e meio que passou em Vila do Conde foi considerado por Sonia uma fase particularmente feliz e fonte de inspiração ao longo da sua vida. Em Portugal realizou importante obras inspiradas na arte popular portuguesa.
Mercado no Minho, 1915

Admiradora dos pintores Van Gogh e Gauguin, assim como dos pintores “fauvistas”, deles recebeu o gosto pela expressividade das cores luminosas.

O poeta e crítico de arte Guillaume Apollinaire designou o estilo de Robert e Sonia Delaunay de “Orfismo” ou “Cubismo Órfico”, em referência a Orfeu (o músico supremo da Mitologia Grega, que encantava a natureza com os seus dotes musicais).

Na obra «Les Peintres Cubistes», Apollinaire definiu “Orfismo” como "A arte de pintar estruturas novas com elementos emprestados não da realidade visual, mas inteiramente criados pelo artista e dotados por ele de uma potente realidade”.

Este conceito identificava semelhança entre a música e a exaltação da luz e da cor, por meio de contrastes entre tonalidades frias e quentes de cores puras, dispostas em círculos dinâmicos justapostos.

Desta forma, a pintura “órfica” – por vezes, também chamada de “cubismo lírico” - seria um reflexo do desejo de acrescentar um novo elemento de lirismo, cor e luminosidade ao cubismo de Picasso, Braque e Gris, alegadamente demasiado austero e intelectual.

Rhythme, 1938

Depois dum tempo de permanência em Madrid, Sonia Delaunay viveu em Paris a partir de 1921, continuando a pintar até à sua morte, em 1979.

Considerada um dos vultos mais salientes da Art Déco, Sónia Delaunay desenhou moda, fez decoração de teatro e bailado, criou tecidos e peças de mobiliário. Chamou aos seus tecidos pintados à mão "contrastes simultâneos", expressão que reflectia o seu interesse pelas relações cromáticas.

Entre os seus figurinos para bailados, destacam-se os concebidos para o espectáculo Cleópatra, produzido pelo bailarino e coreógrafo russo Sergei Diaghilev.


Rythmes couleures, 1971
Sem título, 1972

21/01/11

Presidenciais

«É preciso transformar
desânimos e resignações
em
esperança combativa!»
(Francisco Lopes)

E eu, que até nem gosto muito da palavra «esperança», manifesto aqui a minha inteira identificação com o adjectivo «combativa». Esta é a esperança de que necessitamos: a esperança combativa dos que sabem que as injustiças e a arrogância podem ser enfrentadas.
Todos os que acalentam a esperança de que seja possível um mundo diferente têm no próximo domingo mais um momento de afirmação e combatividade.

05/01/11

Malangatana (1936 - 2011)


Malangatana Valente Ngwenya nasceu em 1936 em Matalana, sul de Moçambique e faleceu hoje, em Portugal.
Os seus primeiros anos de vida foram passados em Escolas de Missões e ajudando a sua mãe no trabalho no campo. Com doze anos, muda-se para Maputo (então Lourenço Marques) para procurar trabalho e em 1953 começou a trabalhar no Clube de Ténis. Este trabalho permitiu-lhe continuar a estudar, frequentando as aulas à noite. Foi nesta altura que o seu talento começou a ser notado.
Em 1959, Malangatana teve o seu trabalho exposto publicamente pela primeira vez numa exposição colectiva e dois anos mais tarde,realizou a sua primeira individual.
Em 1963 a sua poesia foi publicada na revista 'Black Orpheus' e na antologia 'Modern Poetry from Africa".
No ano seguinte, Malangatana foi preso pela polícia secreta (PIDE) e passa 18 meses na cadeia. Em 1971 recebeu uma bolsa da Fundação Gulbenkian e estuda gravura e cerâmica.
Desde 1981 trabalhou exclusivamente como artista.
Malangatana foi agraciado com a medalha Nachingwea pela sua contribuição para a cultura Moçambicana e nomeado Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Expôs em Angola, Portugal, Índia, Nigéria, Chile e Zimbabué entre outros, e o seu trabalho está representado em colecções por todo o mundo. Trabalhou em várias encomendas de arte pública incluindo murais para a Frelimo e para a UNESCO. Malangatana esteve também activo no estabelecimento de várias instituições incluíndo o Museu Nacional de Arte e um centro para jovens artistas em Maputo. Foi também um dos fundadores do Movimento para a Paz. O trabalho de Malangatana projecta uma visão ousada da vida onde há uma comunhão entre homens, animais e plantas. Baseia-se na sua 'herança' mas simultaneamente abraçando símbolos de modernidade e progresso, síntese entre arte e política.
Em 1997, foi nomeado Artista UNESCO pela Paz. O reconhecimento do seu estatuto está presente na declaração proferida pelo Director-Geral da UNESCO, Federico Mayor ao entregar-lhe a distinção. Mayor nota que Malangatana é 'muito mais do que um artista, é alguém que demonstra que existe uma linguagem universal, a linguagem da Arte, que permite comunicar uma mensagem de Paz. (texto adaptado de http://www.africancontemporary.com/)

Poema de António Ramos Rosa

Cada árvore é um ser para ser em nós

Cada árvore é um ser para ser em nós

Para ver uma árvore não basta vê-la

a árvore é uma lenta reverência

uma presença reminiscente

uma habitação perdida

e encontrada

À sombra de uma árvore

o tempo já não é o tempo

mas a magia de um instante que começa sem fim

a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas

e de sombras interiores

nós habitamos a árvore com a nossa respiração

com a da árvore

com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses


António Ramos Rosa

04/01/11

Exposição de Fotografia de Paulo Ricardo



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA
"INSTANTES DO OLHAR"
de
PAULO RICARDO
na Galeria Municipal do Entroncamento
de 8 a 16 de Janeiro de 2011
para mais informação, clicar na imagem

03/01/11

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

Do Amor IV

Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte na natureza pede
o amor em dois olhares.

Fiama Hasse Pais Brandão
(in As Fábulas)

29/12/10

Alegria de Sócrates



Não é que seja surpresa ou grande novidade, mas a Lusa noticia hoje que o primeiro ministro, José Sócrates aparecerá ao lado de Alegre pelo menos por duas vezes na campanha eleitoral das eleições presidenciais.

Provavelmente,a primeira aparição será no início da campanha e a segunda ocorrerá na ponta final.

Confirma-se assim a justeza das palavras de Francisco Lopes no debate televisivo entre o candidatos apoiados pelo PCP e pelo PS:

«Manuel Alegre está em melhores condições para mobilizar os que apoiam o Governo; eu estou em melhores condições para mobilizar todos os que são contra o Governo».

Tendo em conta que todos os votos, quer em Alegre quer em Francisco Lopes, serão igualmente úteis para a não reeleição de Cavaco, seria desejável que os votos daqueles que se opõem à política de direita não pudessem ser confundidos com qualquer abraço, directo ou indirecto, ao governo.

Pela minha parte, fica-me alguma mágoa por ver ao lado de Alegre e de Sócrates alguns amigos que, apesar das divergências, estamos habituados a ter ao nosso lado nos combates da oposição.

21/12/10

Poema de Eugénio de Andrade


Não quero, não

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,

seja baio ou alazão,

sentir o vento na cara,

sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não

ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:

quero saber-lhe a razão,

sentir-me dono de mim,

ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.


A ilustração é de Júlio Resende.
O poema de Eugénio de Andrade faz parte do livro «Aquela nuvem e outras».
Traz-me muito boas recordações...

Memória de outro Natal

19/12/10

A fome dos outros

O texto que se segue está publicado em http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=237792

"O antigo presidente da república, Mário Soares, demonstrou esta sexta-feira estar bastante surpreendido com a situação desesperante em que muitos portugueses vivem.
Soares, derrotado nas últimas eleições presidenciais em 2006, confessou-se muito mais preocupado com o problema da fome, com que muitas famílias se têm deparado em Portugal, salientando o bom trabalho realizado pelo Banco Alimentar.
«Tenho sempre dito que as eleições presidenciais interessam-me relativamente pouco em relação à situação portuguesa. O que me interessa é saber o que se está a passar com aqueles que passam necessidade e que até passam fome. Impressiona-me muito isto do Banco Alimentar, que apoiam pessoas que estão sem comer», disse.
O antigo chefe de Estado fez ainda questão de acrescentar que os debates que têm decorrido até agora não têm sido «conclusivos», acrescentando que ainda não decidiu em quem vai votar."

A fotografia ilustra um momento em que é patente a preocupação do criador dos salários em atraso, reflectindo a sua surpresa perante o problema da fome.

Ao mesmo tempo que digere uma sopinha distribuída por uma organização humanitária dirigida pelo seu novo amigo oculto, o ex-dirigente do PS medita profundamente, tentando decidir em quem irá votar nas próximas eleições presidenciais.

Cá por mim, desconfio que sei em quem ele não votará...

04/12/10

6666

Desde 29 de Julho de 2009, este blogue teve 6666 visitas.
Agradeço à meia dúzia de amigos que me visitaram 1111 vezes.

Poema de Luiz Pacheco (1925-2008)

Como recordação dum convívio memorável, aqui fica publicado, na íntegra, o longo poema de Luiz Pacheco, com o título CÔRO DE ESCARNHO E LAMENTAÇÃO DOS CORNUDOS EM VOLTA DE S. PEDRO, publicado pelas edições Afrodite na obra «Textos Malditos».
Fica também um abraço ao amigo que o disse quase todo de memória e aos que comigo partilharam o prazer de ouvir.

MONÓLOGO DO 1.º CORNUDO
I
Acordei um triste dia
Com uns cornos bem bonitos.
E perguntei à Maria
Por que me pôs os palitos.
II
Jurou por alma da mãe
Com mil tretas de mulher
Que era mentira. Também
Inda me custava a crer...
III
Fiquei de olho espevitado
Que o calado é o melhor
E para não re-ser enganado,
Redobrei gozos de amor.
IV
Tais canseiras dei ao físico,
Tal ardor pus nos abraços
Que caí morto de tísico
Com o sexo em pedaços!
V
Esperava por isso a magana?
Já previa o que se deu?...
Do além vi-a na cama
Com um tipo pior do que eu!
VI
Vi-o dar ao rabo a valer
Fornicando a preceito...
Sabia daquele mister
Que puxa muito do peito.
VII
Foi a hora de me eu rir
Que a vingança tem seus quês:
«O mais certo é práqui vir,
Inda antes que passe um mês».
VIII
Arranjei-lhe um bom lugar
Na pensão de Mestre Pedro
(Onde todos vão parar
Embora com muito medo...)
IX
Passava duma semana
O meu dito estava escrito
Vítima daquela magana
Pobre tísico, tadito!
DUETO DOS 2 CORNUDOS
X
Agora já somos dois
A espreitar de cá de cima
Calados como dois bois
Vendo o que faz a ladina
XI
Meteu na cama mais gente
Um, dois, três... logo a seguir!
Não há piça que a contente
É tudo que tiver de vir!
S. PEDRO, INDIGNADO, PRAGUEJA.
XII
- É de mais!... Arre, diabo!
- Berra S. Pedro, sandeu.
–E mortos por dar ao rabo
Lá vêm eles pró Céu!
CORO, PIANÍSSIMO, LIRISMO
NAS VOZES
XIII
Que morre como um anjinho
Quem morre por muito amar!
CORO, AGORA NARRATIVO
OU EXPLICATIVO.
Já formemos um ranchinho
De cá de cima, a espreitar.
XIV
Passam meses, passa tempo
E a bela não se consola...
Já semos um regimento
Como esses que vão prá Ingola!
(ÁPARTE DO AUTOR DAS COPLAS:
«COITADINHOS!»)
XV
Fazemos apostas lindas
Sempre que vem cara nova.
Cálculos, medidas infindas
Como ela terá a cova.
XVI
Há quem diga que por si
Já não lhe topou o fundo...
Outros juram que era assi
Do tamanho... deste Mundo!
XVII
- Parecia uma piscina!
–Diz um do lado, espantado.
- Nunca vi uma menina
Num estado tão desgraçado!
APARTE DO AUTOR, ANTIGO MILITANTE DAS ESQUERDAS (BAIXAS).
XVIII
(Um estado tão desgraçado?!...
Pareceu-me ouvir o Povo
Chorando seu triste fado
nas garras do Estado Novo!)
XIX
O último que chegou cá
Morreu que nem um patego:
Afogado, ieramá,
Nos abismos daquele pego.
O CORO DOS CORNUDOS,
ACOMPANHADO POR S. PEDRO EM SURDINA,
ENTOA A MORALIDADE, APÓS TER
LIMPADO AS ÚLTIMAS LAGRIMETAS
E SUSPIRANDO COMO SÓ OS CORNUDOS SABEM.
XX
Mulher não queiras sabida
Nem com vício desusado,
Que podes perder a vida
Na estafa de dar ao rabo.
XXI
Escolhe donzela discreta
Com os três no seu lugar.
Examina-lhe a greta,
Não te vá ela enganar...
XXII
E depois de veres o bicho
E as maneiras que tem
A funcionar a capricho,
Já sabes se te convém.
XXIII
Mulher calma, é estimá-la
Como a santa no altar.
Cabra douda, é rifá-la...
- Que não venhas cá parar.
XXIV
Este conselho te dão,
E não te levam dinheiro...
Os cornudos que aqui estão
Com S. Pedro hospitaleiro.
XXV
Invejosos quase todos
Dos conos que o mundo guarda
FAZEM MAIS UM BOCADO DE LAMENTAÇÃO.
NOTA DO AUTOR: QUASE,
PORQUE ENTRETANTO
ALGUNS BRINCAVAM UNS COM OS OUTROS.
RABOLICES!
Mas se fornicas a rodos
Tua vinda aqui não tarda!
RECOMEÇA A MORALIDADE, ESTILO
ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM.
ALGUNS BÊBADOS, CORNUDOS
DESPEITADOS OU AMARGURADOS.
VOZES PASTOSAS.
DEVE LER-SE: VIIINHO...VÉLHIIINHO...
XXVI
Melhor que a mulher é o vinho
Que faz esquecer a mulher...
Que faz dum amor já velhinho
Ressurgir novo prazer.
FINALE, MUITO CATÓLICO.
XXVII
Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.
Luiz Pacheco
Num dia em que se achou
Mais pachorrento.

01/12/10

Poema de Fernando Pinto do Amaral

Zeitgeist

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa - ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.


Fernando Pinto do Amaral

21/11/10

GREVE GERAL - 24 de Novembro (5)

Esta gente quer-nos assim...



Mas na próxima quarta feira,
fazemos-lhes assim:

14/11/10

GREVE GERAL - 24 de Novembro (4)

Em 24 de Novembro,
quem não pára, consente!

10/11/10

GREVE GERAL - 24 de Novembro (2)

Em 24 de Novembro,
quem não pára, consente!

09/11/10

Nos 92 anos de Papiniano Carlos

ITINERÁRIO

Os milhares de anos que passaram viram
a nossa escravidão.

NÓS carregámos as pedras das pirâmides,
o chicote estalou,
abriu rios de sangue no nosso dorso.
NÓS empunhámos nas galés dos césares
os abomináveis remos
e o chicote estalou de novo na nossa pele.
A terra que há milhares de anos arroteámos
não é nossa,
e só NÓS a fecundamos!
E quem abriu as artérias? quem rasgou os pés?
Quem sofreu as guerras? quem apodreceu ao abandono?

E quem cerrou os dentes, quem cerrou os dentes
e esperou?

Spartacus voltará: milhões de Spartacus!

os anos que aí vêm hão-de ver
a nossa libertação.

Poema de Papiniano Carlos, nascido em 9 de Novembro de 1918

07/11/10

No dia 25 de Outubro de 1966, dei um erro no ditado e, ainda por cima, foi na igreja...

Dei uns poucos de erros na cópia, que é coisa que continuo a detestar, mas a dona Micaela não os assinalou. Talvez estivesse distraída, a pensar no Cristo, que na parede da sala de aula nos observava, pregado entre os dois ladrões.

O que me leva a publicar esta página dos meus cadernos escolares é a aprovação na generalidade do Orçamento de Estado.

Também vai vestido de branco, enfeitado de laços, parece um anjo. Leva padrinho e madrinha, todos contentes por oferecerem ao país aquele afilhado.

Ele é o ÚNICO

Saltitando de ligação em ligação, encontrei hoje mais um blogue que não conhecia. Chama-se anti-trollurbano.blogspot.com e é um sítio bem humorado.
Vale a pena fazer uma visita para ver um incrível video onde Louçã afirma, entre outras coisas com idêntica modéstia, que...
... «O Bloco de Esquerda é a ÚNICA força, em Portugal, que quer uma vitória para a esquerda nas eleições presidenciais.»
e é...
... «o ÚNICO partido que se opõe à NATO em Portugal.» AQUI
Não sei por que razão me lembrei deste velhinho autocolante, que guardo há trinta e tal anos.

03/11/10

Tiago Vieira expulso de Marrocos

Nos dias 30 e 31 de Outubro, o presidente da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD) e Coordenador da Comissão Organizadora do Comité Internacional do 17.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, Tiago Vieira, foi detido e expulso pelas autoridades marroquinas sem qualquer explicação consistente.

Em visita a Laayoune, após apelo e convite da organização de juventude saharaui UJSARIO dada a situação de cerco que o exército marroquino tem imposto aos activistas do Sahara Ocidental naquela região (cerco que já levou à morte um jovem de 14 anos assassinado há poucos dias pelas forças marroquinas), Tiago Vieira foi abordado pela polícia marroquina ainda no interior do avião procedente de Casablanca, recém aterrado em Laayoune. Foram-lhe feitas perguntas sobre o porquê da visita àquela região de Marrocos e tiradas fotografias do seu rosto assim como do seu passaporte, sem qualquer explicação e com a referência apenas ao “cumprimento de ordens”.

Retido no avião, o presidente da FMJD foi posteriormente obrigado a regressar para a Casablanca, privado do passaporte, que durante o voo foi retido pelo próprio piloto do avião. Ao chegar a Casablanca, sem conseguir recuperar o passaporte, foi encaminhado para um carro da polícia, nova detentora do passaporte, que o encaminhou para uma sala onde além do frio e ausência de sítio para dormir, ficou durante mais de 15 horas sem qualquer justificação, tendo apenas sido informado (ao fim de 12 horas) que a polícia marroquina o havia colocado no próximo voo para Portugal. Escoltado pela polícia até à porta de embarque do avião, o presidente da FMJD voltou a insistir no apuramento da razão desta expulsão do país, e uma vez mais lhe foi dito que eram “apenas ordens de alguém superior”.(continua)

Ler o resto da nota do gabinete de Imprensa do PCP aqui.

E por que se cala a comunicação social portuguesa ?

Por Tiago Vieira ser comunista?

Por Marrocos ser um país amigo?