21/12/10

Poema de Eugénio de Andrade


Não quero, não

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,

seja baio ou alazão,

sentir o vento na cara,

sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não

ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:

quero saber-lhe a razão,

sentir-me dono de mim,

ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.


A ilustração é de Júlio Resende.
O poema de Eugénio de Andrade faz parte do livro «Aquela nuvem e outras».
Traz-me muito boas recordações...

Memória de outro Natal

19/12/10

A fome dos outros

O texto que se segue está publicado em http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=237792

"O antigo presidente da república, Mário Soares, demonstrou esta sexta-feira estar bastante surpreendido com a situação desesperante em que muitos portugueses vivem.
Soares, derrotado nas últimas eleições presidenciais em 2006, confessou-se muito mais preocupado com o problema da fome, com que muitas famílias se têm deparado em Portugal, salientando o bom trabalho realizado pelo Banco Alimentar.
«Tenho sempre dito que as eleições presidenciais interessam-me relativamente pouco em relação à situação portuguesa. O que me interessa é saber o que se está a passar com aqueles que passam necessidade e que até passam fome. Impressiona-me muito isto do Banco Alimentar, que apoiam pessoas que estão sem comer», disse.
O antigo chefe de Estado fez ainda questão de acrescentar que os debates que têm decorrido até agora não têm sido «conclusivos», acrescentando que ainda não decidiu em quem vai votar."

A fotografia ilustra um momento em que é patente a preocupação do criador dos salários em atraso, reflectindo a sua surpresa perante o problema da fome.

Ao mesmo tempo que digere uma sopinha distribuída por uma organização humanitária dirigida pelo seu novo amigo oculto, o ex-dirigente do PS medita profundamente, tentando decidir em quem irá votar nas próximas eleições presidenciais.

Cá por mim, desconfio que sei em quem ele não votará...

04/12/10

6666

Desde 29 de Julho de 2009, este blogue teve 6666 visitas.
Agradeço à meia dúzia de amigos que me visitaram 1111 vezes.

Poema de Luiz Pacheco (1925-2008)

Como recordação dum convívio memorável, aqui fica publicado, na íntegra, o longo poema de Luiz Pacheco, com o título CÔRO DE ESCARNHO E LAMENTAÇÃO DOS CORNUDOS EM VOLTA DE S. PEDRO, publicado pelas edições Afrodite na obra «Textos Malditos».
Fica também um abraço ao amigo que o disse quase todo de memória e aos que comigo partilharam o prazer de ouvir.

MONÓLOGO DO 1.º CORNUDO
I
Acordei um triste dia
Com uns cornos bem bonitos.
E perguntei à Maria
Por que me pôs os palitos.
II
Jurou por alma da mãe
Com mil tretas de mulher
Que era mentira. Também
Inda me custava a crer...
III
Fiquei de olho espevitado
Que o calado é o melhor
E para não re-ser enganado,
Redobrei gozos de amor.
IV
Tais canseiras dei ao físico,
Tal ardor pus nos abraços
Que caí morto de tísico
Com o sexo em pedaços!
V
Esperava por isso a magana?
Já previa o que se deu?...
Do além vi-a na cama
Com um tipo pior do que eu!
VI
Vi-o dar ao rabo a valer
Fornicando a preceito...
Sabia daquele mister
Que puxa muito do peito.
VII
Foi a hora de me eu rir
Que a vingança tem seus quês:
«O mais certo é práqui vir,
Inda antes que passe um mês».
VIII
Arranjei-lhe um bom lugar
Na pensão de Mestre Pedro
(Onde todos vão parar
Embora com muito medo...)
IX
Passava duma semana
O meu dito estava escrito
Vítima daquela magana
Pobre tísico, tadito!
DUETO DOS 2 CORNUDOS
X
Agora já somos dois
A espreitar de cá de cima
Calados como dois bois
Vendo o que faz a ladina
XI
Meteu na cama mais gente
Um, dois, três... logo a seguir!
Não há piça que a contente
É tudo que tiver de vir!
S. PEDRO, INDIGNADO, PRAGUEJA.
XII
- É de mais!... Arre, diabo!
- Berra S. Pedro, sandeu.
–E mortos por dar ao rabo
Lá vêm eles pró Céu!
CORO, PIANÍSSIMO, LIRISMO
NAS VOZES
XIII
Que morre como um anjinho
Quem morre por muito amar!
CORO, AGORA NARRATIVO
OU EXPLICATIVO.
Já formemos um ranchinho
De cá de cima, a espreitar.
XIV
Passam meses, passa tempo
E a bela não se consola...
Já semos um regimento
Como esses que vão prá Ingola!
(ÁPARTE DO AUTOR DAS COPLAS:
«COITADINHOS!»)
XV
Fazemos apostas lindas
Sempre que vem cara nova.
Cálculos, medidas infindas
Como ela terá a cova.
XVI
Há quem diga que por si
Já não lhe topou o fundo...
Outros juram que era assi
Do tamanho... deste Mundo!
XVII
- Parecia uma piscina!
–Diz um do lado, espantado.
- Nunca vi uma menina
Num estado tão desgraçado!
APARTE DO AUTOR, ANTIGO MILITANTE DAS ESQUERDAS (BAIXAS).
XVIII
(Um estado tão desgraçado?!...
Pareceu-me ouvir o Povo
Chorando seu triste fado
nas garras do Estado Novo!)
XIX
O último que chegou cá
Morreu que nem um patego:
Afogado, ieramá,
Nos abismos daquele pego.
O CORO DOS CORNUDOS,
ACOMPANHADO POR S. PEDRO EM SURDINA,
ENTOA A MORALIDADE, APÓS TER
LIMPADO AS ÚLTIMAS LAGRIMETAS
E SUSPIRANDO COMO SÓ OS CORNUDOS SABEM.
XX
Mulher não queiras sabida
Nem com vício desusado,
Que podes perder a vida
Na estafa de dar ao rabo.
XXI
Escolhe donzela discreta
Com os três no seu lugar.
Examina-lhe a greta,
Não te vá ela enganar...
XXII
E depois de veres o bicho
E as maneiras que tem
A funcionar a capricho,
Já sabes se te convém.
XXIII
Mulher calma, é estimá-la
Como a santa no altar.
Cabra douda, é rifá-la...
- Que não venhas cá parar.
XXIV
Este conselho te dão,
E não te levam dinheiro...
Os cornudos que aqui estão
Com S. Pedro hospitaleiro.
XXV
Invejosos quase todos
Dos conos que o mundo guarda
FAZEM MAIS UM BOCADO DE LAMENTAÇÃO.
NOTA DO AUTOR: QUASE,
PORQUE ENTRETANTO
ALGUNS BRINCAVAM UNS COM OS OUTROS.
RABOLICES!
Mas se fornicas a rodos
Tua vinda aqui não tarda!
RECOMEÇA A MORALIDADE, ESTILO
ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM.
ALGUNS BÊBADOS, CORNUDOS
DESPEITADOS OU AMARGURADOS.
VOZES PASTOSAS.
DEVE LER-SE: VIIINHO...VÉLHIIINHO...
XXVI
Melhor que a mulher é o vinho
Que faz esquecer a mulher...
Que faz dum amor já velhinho
Ressurgir novo prazer.
FINALE, MUITO CATÓLICO.
XXVII
Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.
Luiz Pacheco
Num dia em que se achou
Mais pachorrento.

01/12/10

Poema de Fernando Pinto do Amaral

Zeitgeist

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa - ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.


Fernando Pinto do Amaral

21/11/10

GREVE GERAL - 24 de Novembro (5)

Esta gente quer-nos assim...



Mas na próxima quarta feira,
fazemos-lhes assim:

14/11/10

GREVE GERAL - 24 de Novembro (4)

Em 24 de Novembro,
quem não pára, consente!

10/11/10

GREVE GERAL - 24 de Novembro (2)

Em 24 de Novembro,
quem não pára, consente!

09/11/10

Nos 92 anos de Papiniano Carlos

ITINERÁRIO

Os milhares de anos que passaram viram
a nossa escravidão.

NÓS carregámos as pedras das pirâmides,
o chicote estalou,
abriu rios de sangue no nosso dorso.
NÓS empunhámos nas galés dos césares
os abomináveis remos
e o chicote estalou de novo na nossa pele.
A terra que há milhares de anos arroteámos
não é nossa,
e só NÓS a fecundamos!
E quem abriu as artérias? quem rasgou os pés?
Quem sofreu as guerras? quem apodreceu ao abandono?

E quem cerrou os dentes, quem cerrou os dentes
e esperou?

Spartacus voltará: milhões de Spartacus!

os anos que aí vêm hão-de ver
a nossa libertação.

Poema de Papiniano Carlos, nascido em 9 de Novembro de 1918

07/11/10

No dia 25 de Outubro de 1966, dei um erro no ditado e, ainda por cima, foi na igreja...

Dei uns poucos de erros na cópia, que é coisa que continuo a detestar, mas a dona Micaela não os assinalou. Talvez estivesse distraída, a pensar no Cristo, que na parede da sala de aula nos observava, pregado entre os dois ladrões.

O que me leva a publicar esta página dos meus cadernos escolares é a aprovação na generalidade do Orçamento de Estado.

Também vai vestido de branco, enfeitado de laços, parece um anjo. Leva padrinho e madrinha, todos contentes por oferecerem ao país aquele afilhado.

Ele é o ÚNICO

Saltitando de ligação em ligação, encontrei hoje mais um blogue que não conhecia. Chama-se anti-trollurbano.blogspot.com e é um sítio bem humorado.
Vale a pena fazer uma visita para ver um incrível video onde Louçã afirma, entre outras coisas com idêntica modéstia, que...
... «O Bloco de Esquerda é a ÚNICA força, em Portugal, que quer uma vitória para a esquerda nas eleições presidenciais.»
e é...
... «o ÚNICO partido que se opõe à NATO em Portugal.» AQUI
Não sei por que razão me lembrei deste velhinho autocolante, que guardo há trinta e tal anos.

03/11/10

Tiago Vieira expulso de Marrocos

Nos dias 30 e 31 de Outubro, o presidente da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD) e Coordenador da Comissão Organizadora do Comité Internacional do 17.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, Tiago Vieira, foi detido e expulso pelas autoridades marroquinas sem qualquer explicação consistente.

Em visita a Laayoune, após apelo e convite da organização de juventude saharaui UJSARIO dada a situação de cerco que o exército marroquino tem imposto aos activistas do Sahara Ocidental naquela região (cerco que já levou à morte um jovem de 14 anos assassinado há poucos dias pelas forças marroquinas), Tiago Vieira foi abordado pela polícia marroquina ainda no interior do avião procedente de Casablanca, recém aterrado em Laayoune. Foram-lhe feitas perguntas sobre o porquê da visita àquela região de Marrocos e tiradas fotografias do seu rosto assim como do seu passaporte, sem qualquer explicação e com a referência apenas ao “cumprimento de ordens”.

Retido no avião, o presidente da FMJD foi posteriormente obrigado a regressar para a Casablanca, privado do passaporte, que durante o voo foi retido pelo próprio piloto do avião. Ao chegar a Casablanca, sem conseguir recuperar o passaporte, foi encaminhado para um carro da polícia, nova detentora do passaporte, que o encaminhou para uma sala onde além do frio e ausência de sítio para dormir, ficou durante mais de 15 horas sem qualquer justificação, tendo apenas sido informado (ao fim de 12 horas) que a polícia marroquina o havia colocado no próximo voo para Portugal. Escoltado pela polícia até à porta de embarque do avião, o presidente da FMJD voltou a insistir no apuramento da razão desta expulsão do país, e uma vez mais lhe foi dito que eram “apenas ordens de alguém superior”.(continua)

Ler o resto da nota do gabinete de Imprensa do PCP aqui.

E por que se cala a comunicação social portuguesa ?

Por Tiago Vieira ser comunista?

Por Marrocos ser um país amigo?

30/10/10

Demagogia populista

«A minha campanha será sóbria e contida nas despesas.
Dei indicações para que a despesa total da minha campanha não ultrapasse metade do valor que é permitido pela lei actualmente em vigor.
Não colocarei um único cartaz exterior (os chamados “outdoors”).
Sei que isso me pode prejudicar face aos outros candidatos. Mas, quando tantos sacrifícios são exigidos aos portugueses, os agentes políticos devem dar o exemplo. Não me sentiria bem com a minha consciência gastando centenas de milhares de euros com a afixação de cartazes. »

Marcelino Camacho (1918-2010)

Marcelino Camacho, militante comunista e histórico fundador das Comisiones Obreras, morreu ontem em Madrid.
Para ilustrar uma homenagem, encontrei inúmeros videos com filmes documentais, comícios, fotografias, entrevistas, canções de combate...
Pela simplicidade e actualidade das palavras de Josefina Samper e Marcelino Camacho e pelo contexto em que foram ditas, escolhi este.

29/10/10

Centenário de Augusto Gomes

O pintor Augusto Gomes nasceu em Matosinhos, em 12 de Junho de 1910, e faleceu em Matosinhos, em 20 de Outubro de 1976.
Na década de 40, foi professor em escolas industriais de várias cidades do país e, mais tarde, passou a leccionar na Escola Superior de Belas Artes do Porto, escola onde se tinha formado com a classificação final de 20 valores.
A sua obra pictórica inclui, além de telas, cartões para tapeçarias e diversas técnicas murais instaladas em vários espaços públicos.
Aborda uma temática vincadamente ligada à realidade dos trabalhadores e, em especial, à vida das mulheres dos pescadores de Matosinhos.
Nos anos 50 colaborou activamente com o Teatro Experimental do Porto, como encenador. cenógrafo e figurinista.

24/10/10

Desafio à memória dos leitores

A minha mãe encontrou numa caixa, juntamente com velhas fotografias e cartões, um papelinho com um poema anónimo sobre um ano em que muito aconteceu.
Quem se lembra de que ano foi este?

A Terra tremeu.
O "Maneta" apareceu.
O Eusébio cedeu.
A selecção perdeu.
O estudante sofreu.
O Ministro enfureceu.
A Académica ardeu.
A vida encareceu.
O Povo sofreu.
A gente envelheceu.
O "outro" não morreu.
O Marcelo prometeu,
E até agora nada deu.
E, no fim disto tudo,
Quem se lixou fui eu.

Da Algarve até ao Minho,
Tudo são aflições,
Desde o "mijo" do Agostinho,
À "merda" das eleições.

Pum-pum, e acabou-se...

23/10/10

Sócrates ao espelho

"Passeando" pelo Youtube, encontrei esta montagem curiosa.

19/10/10

APESAR DE...

Apesar do PEC 1, do PEC2, (...) do PEC x

Apesar dos pais do PEC

Apesar dos patrões dos pais do PEC

Dedico esta canção a todos os meus amigos que, temporariamente, andam "falando de lado e olhando para o chão".

Amanhã há-de ser outro dia!

11/10/10

3 blogues de documentação histórica

Há muito tempo que venho seguindo três blogues cuja existência merece ser divulgada porque, embora não abordem, em geral, acontecimentos actuais, divulgam interessante documentação relacionada com a História da resistência antifascista em Portugal e no exílio.
São eles:
ruyluisgomes.blogspot.com - publicado por Jorge Rezende desde Julho de 2005
e
josecardosomorgado.blogspot.com - ambos publicados por Paulo Morgado

09/10/10

LIVRO, de José Luís Peixoto

«Livro», o último romance de José Luís Peixoto é, antes de mais nada, a homenagem que faltava à epopeia do milhão e meio de portugueses que emigraram para França entre 1960 e 1974. Nada mais justo do que vermos tão merecida homenagem surgir pela mão dum escritor que tão bem sabe abordar os ambientes, vivências e sentimentos mais populares, sem quaisquer traços de paternalismo intelectual.

Desde o século XIX até aos nossos dias, não faltam na literatura portuguesa obras dedicadas a temáticas directamente relacionadas com as classes populares de ambientes rurais. A vida dura das aldeias e dos trabalhadores do campo marcou forte presença em numerosos romances, numa linha de continuidade iniciada, talvez, com Júlio Dinis e na qual se destacam obras de, entre outros, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Alves Redol e, mais perto de nós, «Levantado do Chão» de Saramago.

Encontro neste «Livro» uma visão dessa realidade que me parece construída dum ponto de vista interior, isto é, do ponto de vista dum escritor que - sem deixar de assumir a sua erudição - vem falar-nos sobre a gente a que pertence, a sua gente, em vez de se assumir como uma testemunha indirecta vinda do meio letrado urbano para observar e contar o que viu.

Por outro lado, há neste romance várias passagens de impressionante vivacidade descritiva, nas quais as palavras conseguem ultrapassar o cinema pela capacidade de nos colocarem perante os olhos imagens móveis que se perpetuam na memória visual. Uma matança do porco; um rapaz que prepara a massa com cimento, areia e água; uma maçã repartida; o lançamento dum foguete... são cenas que vemos e continuamos a ver depois de fecharmos o livro.

Na segunda parte, um arrojado processo narrativo envolve-nos e arrasta-nos para o interior dum complexo diálogo entre autor, narrador, personagem, livro e leitor, até ao desenlace da história de amor que constitui o fio condutor do romance.

Se é certo que o lançamento de «Livro» foi antecedido duma série de acções e originalidades publicitárias que poderiam levar-nos a recear que o produto final ficasse aquém das expectativas criadas, a verdade é que, desta vez, a publicidade não enganou.

«Livro» é, na minha opinião, um grande livro, um dos que li com mais prazer nos últimos anos.

Mais sobre José Luís Peixoto no caderno sem capa

05/10/10

Outros 5 de Outubro

Para a minha geração, o primeiro 5 de Outubro foi o de 1974.
Era Sábado, Vasco Gonçalves veio ao Porto e discursou para uma multidão na Praça General Humberto Delgado. Com o sincero calor humano que sempre transmitia, mobilizou para a histórica jornada de trabalho voluntário que se realizou no dia seguinte: um Domingo de trabalho para a batalha da produção ou, como agora dizemos, pôr Portugal a produzir.
No entanto, nos anos anteriores a Implantação da República foi sempre comemorada como oportunidade de resistência antifascista.
Hoje, tal como no passado, a memória da Revolução de 5 de Outubro de 1910 não é propriedade dos que se apoderam da "coisa pública" para benefício seu ou dos poderes que os controlam e se aproveitam das efemérides para manobras de propaganda saudosista. Os que enchem os discursos de republicanismo, mas acatam servilmente os mapas cor-de-rosa do século XXI.
5 de outubro, como todas as outras datas marcantes do progresso, é património daqueles que se batem pela soberania popular, por uma República melhor e uma Democracia mais avançada, num país independente.

(Já tinha publicado estes documentos guardados, em 8/1/2009, mas hoje pareceu-me um bom dia para repetir a sua apresentação)

04/10/10

O Escudo...

... era um símbolo da República Portuguesa...



29/09/10

DE COMO UM REI PERDEU A FRANÇA

Acabei hoje de ler este livro, que é o sétimo volume da série «Os Reis Malditos», escrita por Maurice Druon (1918-2009).
O autor conheceu o exílio e participou na Resistência durante a Guerra de 1939-45. Recebeu o Prémio Goncourt em 1948, foi membro da Academia Francesa desde 1966 e ministro da Cultura na década de setenta.
Registe-se como curiosidade que Maurice Duon foi, juntamente com o seu tio Joseph Kessel, autor da letra do emocionante «Chant des Patisans» (1943).
«De como um Rei perdeu a França» narra o reinado de João II, caracterizado como um rei medíocre, sem qualquer capacidade para liderar ou para tomar as decisões adequadas às dificuldades que a França enfrentava. O período histórico da acção corresponde aos anos que medeiam entre a derrota de Filipe VI na batalha de Crécy (1346) e a derrota de João II na batalha de Poitiers (1356).
Na página 206, encontrei um período que me fez interromper a leitura e pensar, durante alguns minutos, num certo Primeiro Ministro e nos seus aduladores:
"Enquanto houver um homem a mandar, mesmo que seja o pior dos imbecis, haverá sempre quem esteja disposto a pensar que manda bem."

EXPOSIÇÃO EM MATOSINHOS

Centenário da Implantação da República
Exposição promovida pela
Comissão Concelhia de Matosinhos do PCP2 a 7 de Outubro de 2010
das 9 às 12 e 30h e das 15 às 17h
Abertura - dia 2, às 15h, com Vasco Cardoso
membro da Comissão Política do Comité Central do PCP
Sessão - dia 6, às 21 e 30h,
com
Silvestre Lacerda, Director da Torre do Tombo
e
Elvira Castanheira, professora de História

12/09/10

Fotografias sobre fotografias


Três imagens do rio Lima

Uma vez mais, aqui ficam imagens do rio Lima e de Ponte de Lima.

Na vila

Em Vitorino das Donas

Em S. João da Ribeira

08/09/10

PRESIDENCIAIS NO BRASIL


Devo dizer que me sinto incapaz - pelo menos até este momento - de manifestar uma opção clara e fundamentada entre as candidaturas de Dilma Rousseff, apoiada pelo PCdoB, ou a de Ivan Pinheiro, lançada pelo PCB.
No entanto, algo me faz sentir que, lá como cá, está presente o clássico debate entre os que se batem pela superação revolucionária do capitalismo e os que, com linguagem de esquerda - e, muitas vezes, com honestas convicções progressistas - tentam suavizar e humanizar a sociedade sem abalar estruturalmente as relações de produção e de poder.
No manifesto eleitoral do Partido Comunista Brasileiro, gostei de ler:

«A continuidade do capitalismo é uma ameaça à própria vida, à natureza e à espécie humana. Este sistema está completamente falido; mas não cairá de podre, se os trabalhadores não o derrotarem. Fará de tudo para aprofundar a exploração e atacar mais os sindicatos e as organizações populares. De tudo farão para explorar as reservas de recursos naturais e a biodiversidade do planeta.

Mesmo ferido pela crise, o sistema imperialista afia suas garras para manter essa ordem envelhecida e desumana. Promove a guerra contra povos inteiros, como no Iraque e no Afeganistão, arma Israel para apoiar sua política genocida e a expulsão dos palestinos de suas terras, realiza provocações e campanhas permanentes contra os povos que decidem resistir aos seus interesses. Na América Latina, promove golpe militar em Honduras, mantém o embargo criminoso contra Cuba e reativa a IV Frota para ameaçar os povos e garantir o controle sobre as riquezas naturais da região. Bases militares são criadas em vários países para cercar os governos progressistas, principalmente da Venezuela.

O Brasil tem realizado ações no plano internacional que demonstram alguma autonomia e mesmo algum grau de conflito em relação aos interesses dos Estados Unidos e seus aliados. Mas é clara a vinculação da política externa brasileira aos interesses do capital, tanto no que diz respeito às empresas brasileiras, que participam de obras e empreendimentos por toda a América Latina, quanto às empresas estrangeiras que atuam no território brasileiro.

Do projeto burguês de inserção do Brasil, como potência, ao capitalismo internacional faz parte a estratégia brasileira de integração regional: se a proposta da ALCA (projeto agressivo do imperialismo para impor a dependência econômica e política às nações do continente) foi enterrada com ajuda do Brasil, não há interesse da parte do governo brasileiro em fortalecer a ALBA, integração soberana e anti-imperialista da América Latina, liderada por Cuba, Venezuela e Bolívia. E as forças militares brasileiras são mantidas no Haiti, a pedido dos EUA, para manter o domínio sobre aquele povo.»

O Manifestodo PCB pode ser lido aqui.

Festa do Avante! 2010

ALGUNS APONTAMENTOS

PRESIDENCIAIS - 2

O texto de que, a seguir, se transcrevem extractos é da autoria do deputado António Filipe e pode ser lido na íntegra em http://blogs.parlamento.pt/apontamentos/

Francisco Lopes

A propósito da decisão anunciada pelo Comité Central do PCP de indicar um dos seus mais destacados dirigentes, Francisco Lopes, como candidato à Presidência da República, temos assistido a um desfile de ideias feitas visando desvalorizar ou até denegrir a candidatura e quem a protagoniza que, tendo como denominador comum o anti-comunismo mais ou menos primário, reflectem a séria incomodidade gerada por esta candidatura, à direita, mas também junto de uma certa esquerda.

A mais primária e preconceituosa dessas ideias está relacionada com a origem social do candidato, ou mais propriamente, com o facto de não possuir estudos superiores, como se a licenciatura fosse condição indispensável para o exercício de cargos públicos, e como se não existissem exemplos mais que bastantes de cidadãos que, não tendo estudos superiores, deram provas de capacidade e aptidão para o exercício das mais elevadas responsabilidades. (...) Ao contrário, Portugal tem sido (des)governado por “doutores” e “engenheiros” com os resultados que se conhecem.

Uma outra ideia feita resulta da escolha partidária do candidato, o que supostamente o desvalorizaria. Seria um homem do aparelho, escolhido pelo Comité Central, logo, menos candidato que os outros. Para além de recusar liminarmente a ideia de que alguém que é dirigente partidário fica limitado nos seus direitos cívicos por esse facto, importa recordar algumas evidências. A primeira é que, apoiando candidatos seus ou apoiando candidatos alheios, nunca nenhum partido deixou de tomar posição nas eleições presidenciais. A segunda é que, se falamos de “homens do aparelho”, não sei o que dizer da candidatura de Cavaco Silva que foi durante 10 anos líder do PSD; de Francisco Louçã que foi candidato e líder do BE; de Jorge Sampaio que foi Secretário-geral do PS; de Mário Soares que foi o que se sabe no PS; ou mesmo de Manuel Alegre, que foi reiteradamente cabeça de lista do PS por Coimbra e que exerceu por muitos anos o cargo de Vice-Presidente da AR por indicação do seu Partido. Ou seja, ser do aparelho só é mau, se o aparelho for o do PCP.

Quanto à escolha pelo Comité Central, não vejo onde está a admiração. O Comité Central do PCP decidiu em devido tempo apresentar a candidatura de um dos seus membros e tomou pública essa decisão. Posteriormente debateu e decidiu quem deveria ser esse candidato e publicitou-o. Prefiro mil vezes que tenha sido assim, do que se tivesse sido o Secretário-geral a anunciar publicamente o apoio a um candidato e a impô-lo ao Comité Central, gerando a perante a perplexidade e a incomodidade dos seus membros. Como diria alguém, vocês sabem do que estou a falar.

A ideia mais batida, difundida e rebarbativamente repetida, é porém a da suposta ortodoxia comunista do candidato. Francisco Lopes será da “linha dura”, apenas conhecido de meia dúzia de militantes, desconhecido da “opinião pública” e portanto, má opção para o Partido. (...) Apetece-me perguntar se os que criticam a suposta dureza de Francisco Lopes estariam na disposição de votar num candidato mais mole ou gelatinoso que tivesse sido proposto pelo PCP. Apetece-me perguntar ainda por que carga de água, sendo o candidato tão mau para o PCP, causa tanta preocupação entre os seus adversários confessos. O que seria natural é que festejassem a candidatura e que a aplaudissem, ainda que cinicamente. Mas não o fazem e sabem muito bem porquê.

(...)

O que acontece é que os rótulos de “ortodoxo”, de “homem do aparelho” ou a referência a um discurso supostamente repetitivo, com que muitos comunistas têm sido invariavelmente rotulados ao longo dos tempos como preço a pagar pela coerência das suas convicções, não é mais do que um velho truque destinado a evitar uma discussão séria sobre as propostas, as ideias e o projecto de sociedade por que lutam os comunistas. Arrumar as propostas dos comunistas a um canto com o argumento de que se trata da repetição da “cassette” é a mais esfarrapada desculpa para não ter de discutir as ideias que os comunistas realmente defendem e para não ter de admitir que é no PCP, nas suas candidaturas e nas suas propostas, que os trabalhadores e as camadas mais desfavorecidas da população encontram quem luta pelos seus direitos e quem defende uma sociedade mais justa e livre da exploração.

(...)

Depois vem o espectro da divisão. A candidatura de Francisco Lopes dividiria a esquerda e assim facilitaria a vitória de Cavaco Silva. Tal ideia, é preciso dizê-lo, não vem da direita, que assim não pensa. Não vem de Manuel Alegre que, inteligentemente, saudou a candidatura do PCP e afirmou que os votos do PCP nunca faltaram à esquerda nos momentos decisivos. Mas vem de alguns destacados bloquistas que procuram justificar o seu apoio ao candidato do PS com base numa suposta divisão do eleitorado que a candidatura comunista provocaria.

Basta saber fazer contas de somar para perceber que se o objectivo primeiro destas eleições, para quem é de esquerda, é evitar a vitória de Cavaco Silva à primeira volta, é fundamental mobilizar o maior número de votos possível em qualquer candidato que não seja Cavaco Silva. (...)

A incomodidade de alguns destacados bloquistas nestas eleições presidenciais é mais que evidente. Apoiaram prematuramente o candidato do PS e agora têm de lidar com isso. Vão ter de fazer um discurso contra o Governo PS na Assembleia da República e compartilhar o palco das presidenciais com dirigentes do PS e membros do Governo. Vão dizer que o PS não gosta do seu próprio candidato, mas vão ter o PS e porventura o próprio candidato (que nunca renegou o seu Partido apesar de algumas divergências que assumiu) a desmenti-los. O BE tomou a decisão que tomou e que é perfeitamente legítima. Agora porém, não venham alguns conhecidos bloquistas disfarçar a sua incomodidade com ataques ao PCP. Os apoiantes de Francisco Lopes sabem o que defende o seu candidato, sabem o que ele pensa da política do actual Governo e sabem que o seu voto permite contribuir para a derrota de Cavaco Silva sem se confundir ou identificar com políticas contrárias aos interesses dos trabalhadores e do povo português. Nem todos podem dizer o mesmo, mas cada um é responsável pelas suas opções.

Finalmente, lendo o que por aí se escreve, pode alguém ficar com a ideia que o PCP ficaria incomodado caso houvesse uma segunda volta, porque nessa altura poderia ter de votar em outro candidato contra Cavaco Silva. Quem assim escreve parece não conhecer o PCP e a coerência das suas posições em matéria de eleições presidenciais. O PCP apresentou sempre um candidato próprio e, de acordo com cada situação concreta, tomou a posição mais acertada para derrotar os candidatos da direita. (...)

Só quem não conhece os comunistas portugueses pode duvidar do seu empenhamento em derrotar Cavaco Silva e do seu papel decisivo para que essa derrota seja possível. A direita percebe isso e ataca Francisco Lopes com base em preconceitos anti-comunistas e de classe. Mas há também alguma esquerda que, enredada nas suas próprias contradições, procura por todos os meios desvalorizar o papel ímpar que a candidatura de Francisco Lopes vai assumir nestas eleições presidenciais na denúncia das políticas neo-liberais e na afirmação coerente dos valores da esquerda, sem equívocos e sem cedências tácticas, numa palavra, merecedora de confiança.

António Filipe

02/09/10

PRESIDENCIAIS - 1

As próximas eleições presidenciais têm, para já, a curiosa particularidade de haver um candidato que é apoiado, em comum, pelo governo de Sócrates e por uma força política da oposição.

Essa força política - que insiste em não se chamar partido - é o tal bloco que prometia introduzir no país uma forma inovadora e moderna de fazer política; o tal que nunca se engana no adversário.

Há um ano e meio, esta originalidade parecia impossível, até aos próprios dirigentes, como se ilustra com o filme seguinte, que recolhi no 5dias.net.