RECESSÃO - Começa quando o teu vizinho perde o emprego.
DEPRESSÃO - Começa quando tu perdes o teu emprego.
RECUPERAÇÃO - Começa quando Sócrates perder o emprego dele.
23/05/10
Pensamento da semana
22/05/10
DIa 29 de Maio estaremos em Lisboa
QUEM FICA EM CASA QUANDO A LUTA COMEÇA
Quem fica em casa quando a luta começa
E deixa os outros combater p'la sua causa
Tem de ter cuidado: pois
Quem não partilhou da luta
Partilhará da derrota.
Nem sequer evita a luta
Quem evita a luta: pois
Lutará p'la causa do inimigo
Quem não lutou p'la própria causa.
Bertold Brecht (versão de Paulo Quintela)
11/05/10
O supremo ilusionista está entre nós
O supremo ilusionista está entre nós, com o seu sorriso puro e as suas vestes brancas.
Branco mais branco não há... para alegria dos broncos...
Durante os próximos dias, grandes milagres vão acontecer.Tudo serão bençãos do céu e a dura realidade estará oculta sob um manto branco.
Talvez a canonização do PEC seja o próximo segredo de Fátima.
Aliás, os nossos governantes estarão ao lado de Sumo Pontífice para beberem uma pingas da sua santidade. As escolas laicas estarão fechadas no dia 13 (que não é Sexta-feira) e toda a polícia do Estado laico estará ao serviço da segurança do representante de Deus. Não vá o diabo... etc.
Por mim, não posso deixar de assinalar a importância do momento. Por isso, vou comprar amanhã um livro que há muito desejo ler: «NA COVA DOS LEÕES», de Tomás da Fonseca.
07/05/10
Pelo vínculo efectivo de trabalho
ESTABILIDADE DO EMPREGO!
TRABALHO COM DIREITOS!
30/04/10
Eleições em Cuba
1.

3.

24/04/10
ABRIL
Em 1982, quando estava em Tomar a cumprir (contrariadíssimo) o Serviço Militar Obrigatório, escrevi este texto, que ficou, até hoje, guardado num caderno com capa. Transcrevo-o agora, resistindo a alterá-lo.Subitamente eu vi nascer o sol
no teu corpo adolescente, meu país.
Vi abrirem-se as portas que retinham
as palavras e os gestos e as águas.
Vi no cais caravelas regressadas
de mares nunca dantes navegados.
Vi nascer uma nova geografia,
oceanos de paz e de gaivotas.
Vi nas praças da cidade libertada
fogueiras de esperança e de canções.
Vi as mãos do trabalho que se ergueram
gritando as palavras necessárias:
Abre-te Sésamo dum futuro por abrir.
11/04/10
António de Spínola
09/04/10
a máquina de fazer espanhóis
«a máquina de fazer espanhóis», último romance de valter hugo mãe, publicado pela editora Alfaguara, arrisca-se a ser mais notado pelas suas peculiaridades gráficas do que pela notável qualidade literária do texto.
Desde logo, a opção do autor por uma escrita que exclui as letras maiúsculas, tanto nos inícios de período como nos nomes próprios, constitui um factor distintivo, se bem que não absolutamente inovador. Recorde-se que o poeta norte-americano e. e. cummings (1894-1962) adoptou idêntica atitude, escrevendo exclusivamente em minúsculas, mesmo o seu próprio nome literário.
Por outro lado, o estranho título, a desconcertante fotografia da capa e as oito fotografias reproduzidas no fim do livro, pela sua (pelo menos aparente) desconexão com a narrativa, poderão imprimir ao objecto livro uma originalidade gráfica susceptível de obscurecer a surpreendente força literária da obra.
Dominando uma linguagem clara e exacta, valter hugo mãe envolve-nos, com a mesma profundidade e eficácia comunicativa, tanto em momentos de chocante violência dramática como em passagens de alegria incontida.
«a máquina de fazer espanhóis» é uma reflexão sobre a vida na terceira idade e sobre as descobertas que podem ser feitas quando a vida parece ter perdido o sentido.
O protagonista e narrador, é um homem de oitenta e quatro anos que entra num lar de idosos logo após a inesperada morte da sua companheira de quase cinquenta anos. «a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher.» (página 29).
Previsivelmente, o tempo que lhe resta, entre a morte da mulher e a sua própria morte, não seria mais do que uma espera magoada e solitária, acompanhada pela avançar da senilidade e da doença. O autor centra a nossa atenção muito mais nos conflitos emocionais vividos pela personagem do que no seu processo de envelhecimento, evitando as descrições detalhadas de debilidades físicas (tão presentes, por exemplo, em «Patrimony», de Philipe Roth).
Surpreendentemente, sendo um romance sobre o fim da vida, este é um romance sobre a vida. Esta nova etapa será um tempo de descobertas, de novas perspectivas sobre o passado e sobre as relações humanas, um tempo de construção de novos laços. «este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação…» (página 271).
Um livro a reter com lugar de destaque na mais recente geração de romancistas portugueses, ao lado de «Cemitério de Pianos», de José Luís Peixoto.
03/04/10
Petição Contra a Discriminação informativa ao PCP
Para: Autoridade para a Comunicação Social
Exigimos respeito por um Partido que ao longo dos seus 89 anos de vida , mostrou estar sempre ao lado da luta do nosso povo, pela democracia e pelo socialismo.
Querem-nos silenciar.
Os Comunistas, democratas e antifascistas, presentes nesta rede social, não o vão permitir.
Vamos fazer chegar esta causa e este protesto à alta autoridade para a Comunicação Social.
Vamo-nos organizar
Venceremos
Pode ser assinada aqui
21/03/10
Mães, há só umas?

Milhares de manifestantes desfilaram, ontem em Washington, protestando contra as guerras no Iraque e no Afeganistão.
Otto René Castillo
Aos 19 anos, ganhou o Prémio Centro-Americano de Poesia, o que lhe possibilitou iniciar a publicação de seus poemas, marcados por uma profunda nostalgia da pátria e pela opressão do seu povo, nomeadamente, das comunidades indígenas.
Em El Salvador, participou na fundação do Círculo Literário Universitário, que tinha como lema “No hay estética sin ética”.
Em 1958 voltou à Guatemala, onde iniciou um curso de direito.
No ano seguinte, iniciou um curso de letras em Leipzig (República Democrática Alemã).
Ao fim de 3 anos, interrompeu a vida académica para integrar um grupo de cineastas europeus que filmavam curtas-metragens sobre a luta armada de libertação latino-americana.
Em 1964, Otto René de Castillo partilha a actividade clandestina da luta armada com a direcção dum teatro municipal. Capturado no ano seguinte, é-lhe imposto um novo exílio.
Nomeado, pelas organizações revolucionárias, representante da Guatemala no Comité Organizador do Festival Mundial da Juventude, que terá lugar na Argélia, viaja por vários países europeus e permanece alguns meses em Cuba.
Em 1966, regressa clandestinamente ao seu país para se incorporar as guerrilhas das Forças Armadas Rebeldes, já conhecido como poeta-guerrilheiro.
Em Março do ano seguinte, ferido em combate, é capturado pelas forças do governo e conduzido, juntamente com sua companheira Nora Paiz e com vários camponeses locais, para a base militar de Zacapa. Aí, depois de torturado e mutilado, Otto René Castillo acaba por ser queimado vivo.
Intelectuais apolíticos
Serão perguntados
Não serão interrogados
Intelectuais apolíticos
Um abutre de silêncio vos devorará
18/03/10
PAZ SIM! NATO NÃO!
Assinei esta petição em www.pazsimnatonao.org/peticao/
Petição Ao Presidente da Assembleia da República
Assunto: Realização da Cimeira da NATO em Portugal
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) anunciou a realização de uma cimeira em Portugal, onde prevê rever o seu conceito estratégico no sentido de alargar o seu campo de actuação geográfica, como já sucede nos Balcãs, no Afeganistão e no Paquistão e os pretextos de intervenção.
A realização desta Cimeira em Portugal significa a confirmação do envolvimento do país nos propósitos militaristas deste bloco político-militar, que constituem uma ameaça à paz e à segurança internacional.
O empenhamento do governo português na NATO colide com princípios fundamentais inscritos na Constituição da República Portuguesa e na Carta das Nações Unidas, de que Portugal é signatário – soberania, independência, não ingerência, não agressão, resolução pacífica dos conflitos e igualdade entre Estados; abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração; desarmamento, dissolução dos blocos político-militares.
Preocupados com os objectivos e significado desta cimeira as e os abaixo-assinados expressam a sua oposição à realização da Cimeira da NATO em Portugal e aos seus objectivos belicistas e reclamam das autoridades portuguesas:
- A retirada das forças portuguesas envolvidas em missões militares da NATO
- O fim das bases militares estrangeiras e das instalações da NATO em território nacional
- A recusa da militarização da União Europeia, que a transforma no pilar europeu da NATO
- A efectiva realização de uma política externa portuguesa em consonância com os princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa e na Carta das Nações Unidas, incluindo a promoção de iniciativas em prol do desarmamento e da dissolução dos blocos político-militares.
O aniversário que não aconteceu
Apesar disto, as estações televisivas e as rádios nacionais não fizeram qualquer referência ao 89.º aniversário do PCP no dia em que se assinalava a efeméride – 6 de Março. Não tanto pelo que o PCP foi, mas pelo que é hoje e pela carga de futuro que a sua acção e as suas propostas transportam.
E nem precisavam de «inventar» matérias, pois o PCP realizou, nesse mesmo dia, um comício comemorativo, na Aula Magna, em Lisboa, ao qual compareceram mais de duas mil pessoas, fazendo desta a maior iniciativa partidária desse fim-de-semana. Nos noticiários desse dia, tal iniciativa simplesmente não aconteceu.
O breve registo de Jerónimo de Sousa sobre o PEC, recolhido por uma das estações de televisão, não compensa esse apagamento – sobretudo tendo em conta a intervenção realizada pelo Secretário-geral do PCP onde este abordou os principais problemas do País e do mundo, adiantou a análise do PCP sobre a actual situação política e apresentou um conjunto de propostas de ruptura e mudança para o País.
Aliás, está a tornar-se uma regra a falta de enquadramento e de contextualização das imagens que passam relativas às iniciativas do PCP. Nomeadamente a falta de informação sobre o local e o tipo de realizações, o que contribui para o esbatimento da visibilidade das iniciativas e realizações do Partido. Por vezes, os jornalistas dirigem-se às iniciativas apenas e só para recolherem depoimentos sobre o «assunto do dia».
Nos protestos enviados às direcções das estações televisivas, o PCP reclamou uma alteração de critériosde forma a que sejam garantidos os deveres de pluralismo e isenção a que estão obrigados. A começar, desde logo, pelos restantes comícios de aniversário do Partido. Um deles, realizado na Maia no dia 13, foi ignorado pelo Jornal de Notícias, um dos principais órgãos de informação no Norte do País. O mesmo que fez, aliás, no ano passado. Já o Público não comparece em qualquer iniciativa do PCP desde as eleições autárquicas.
06/03/10
Sobre a condenação de Arnaldo Otegi
«O líder independentista basco Arnaldo Otegi foi condenado esta terça-feira, em Madrid, a dois anos de prisão por «enaltecimento do terrorismo», disse fonte judicial. Arnaldo Otegi, ex-porta-voz do Batasuna, «braço político» ilegalizado da ETA, foi julgado em Janeiro por participar, em 2005, numa homenagem a José Maria Sagarduy, membro da organização separatista basca, que se encontra detido. O dirigente basco foi detido em Outubro por ter tentado, segundo a justiça, reconstituir a direcção do Batasuna, partido ilegalizado em Espanha desde 2003, devido às ligações com a ETA. Otegi foi ilibado dos crimes de associação e reunião ilícita, dos quais também estava acusado.» diario.iol
27/02/10
Como consertar o mundo
26/02/10
Há um jornal diferente
25/02/10
Dois livros
Nas últimas semanas, este blogue tem andado um pouco abandonado.
15/02/10
A MÃE, de Bertold Brecht
O Teatro Municipal de Almada apresenta no Porto, no Teatro Nacional São João, de 12 a 21 de Fevereiro, A Mãe, de Bertolt Brecht.
Tradução da peça e das letras das canções Yvette K. Centeno, Teresa Balté
Encenação Joaquim Benite
Direcção musical Fernando Fontes
Cenografia Jean-Guy Lecat
Figurinos Sónia Benite, Ana Rita Fernandes
Desenho de luz José Carlos Nascimento
Voz e elocução Luís Madureira
Assistência de encenação Rodrigo Francisco
Interpretação Alberto Quaresma, André Albuquerque, Carlos Gonçalves, Carlos Santos, Celestino Silva, Daniel Fialho, Laura Barbeiro, Luzia Paramés, Manuel Mendonça, Marco Trindade, Marques D’Arede, Miguel Martins, Paulo Guerreiro, Paulo Matos, Pedro Walter, Sofia Correia, Teresa Gafeira, Teresa Mónica
Produção Teatro Municipal de Almada
20/01/10
11/01/10
QUEBRA-CABEÇAS
Procura-se uma cabeça disponível para preenchimento de vaga em estátua do século passado.
«CADERNOSEMCAPA» tem a honra de facultar aos seus seguidores e a todos os leitores eventuais uma valiosa oportunidade para participarem na selecção, contribuindo, por esta forma, para a preservação e modernização de tão preciosa relíquia.
Para darem o vosso contributo, poderão manifestar as vossas preferências entre qualquer uma das ilustres cabeças abaixo apresentadas.
Poderão ainda apresentar outras propostas, devidamente fundamentadas.
Vamos pôr as cabeças a funcionar, com a criatividade e a seriedade que merece o formoso monumento.
“Cada cabeça sua sentença”.
09/01/10
SALGUEIROS
Vamos lá ver quem descobre que poeta famoso escreveu este poema épico-desportivo.
Quem não sabe que o Salgueiros
É o Benfica do Norte?
sim. Benfica até na cor
Da camisola vermelha.
Quem lhe quer, quer bem ao Povo,
À Justiça e à Liberdade,
E sente que esta cidade
Traz nas veias sangue novo.
Gente que sonha de noite
Mas que luta, ao Sol, de dia.
Quem junto dela se acoite
Aprende a amar a alegria.
Afinal, a Poesia
Nem sempre é filha da noite...
Em Ele perdendo, o pranto
Rebenta em todos os olhos.
E só deus conhece o quanto
Os homens acham de escolhos.
Mas se ganha, velhos, novos,
Unidos no mesmo abraço,
Riem, acertando o passo.
(Portugal é Portugal!)
Felizes daqueles Povos
Que vivem do mesmo ideal!
Jogadores do Salgueiros!
Fronte erguida, braço forte,
Rudes, simples, verdadeiros.
Quem não sabe que o Salgueiros
É o Benfica do Norte?
08/01/10
A luta pela Paz

Passado quase um ano sobre a eleição de Obama como presidente dos EUA, e apesar da imensa operação ideológica realizada em seu redor, é cada vez mais claro que a agenda estratégica e militarista da actual Administração norte-americana prossegue os mesmos objectivos fundamentais que a anterior.
03/01/10
Maria Eugénia Cunhal
Assinalando os 50 anos da Fuga de Peniche, o Diário de Notícias publica hoje uma interessantíssima entrevista com a poetisa Maria Eugénia Cunhal.
Em cada hora
e dele saem dardos, punhais, espadas
In “As Mãos e o Gesto”
Editorial Escritor
31/12/09
23/12/09
Um conto de Luísa Ducla Soares
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas,
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.
ОЛiВЕДЬ — lápis
ЗОШИТ — caderno
КИГА — livro
ШКОЛА — escola
Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:
Irina, Irina, Irina,
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina.
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.
Na Ucrânia deixou tantos amigos...
Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?
Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
— Pareces uma fada!
E foge logo a correr.
Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!
De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
— Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
— Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
— Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
— Pai, pai! — grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
— Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
— Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
— Força! Coragem! Está quase...
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.
Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
— Como é que o doutor se chama?
— Anton.
— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
— Manhã nós visitar! — exclama a garota.
Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.
— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.
Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.
Para uma fada loura.
com amizade
A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.
— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.
— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.
Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:
OЗНАКА — fada
Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.
(Há sempre uma estrela no Natal, Porto, Civilização Editora, 2006)
20/12/09
Com papas e bolos...
Árvore de Natal
arrancado de los bosques.
en medio de la ciudad,
apagado por el día
encendido por la noche,
y dentro de una semana
seco y muerto para siempre.
Poema de Rafael Alberti
06/12/09
Administração Obama recusa assinar proibição das minas terrestres
O executivo norte-americano decidiu não assinar uma convenção internacional que proíbe as minas terrestres, revelou o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly, afirmando que a administração Obama acabou recentemente de reapreciar a questão e decidiu não mudar a política da administração Bush.
"Determinamos que não seríamos capazes de atender às nossas necessidades de defesa nacional nem nossos compromissos de segurança para com nossos amigos e aliados se assinássemos essa convenção", disse o porta-voz Ian Kelly.
PETIÇÃO EM FAVOR DE ANTONIO TABUCCHI
A liberdade de expressão está ameaçada na Itália.
O presidente do senado italiano, Renato Schifani, pediu-lhe em tribunal a quantia exorbitante de 1.350.000 euros como indemnização por um artigo publicado no «Unità».
Para ler e assinar a petição, clicar sobre a foto




































