23/12/09

Um conto de Luísa Ducla Soares

O Primeiro Natal em Portugal
É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas,
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.
ОЛiВЕДЬ — lápis
ЗОШИТ — caderno
КИГА — livro
ШКОЛА — escola
Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:

Irina, Irina, Irina,
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina.
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.

Na Ucrânia deixou tantos amigos...
Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?
Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
— Pareces uma fada!
E foge logo a correr.
Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!
De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
— Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
— Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
— Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
— Pai, pai! — grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
— Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
— Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
— Força! Coragem! Está quase...
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.
Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
— Como é que o doutor se chama?
— Anton.
— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
— Manhã nós visitar! — exclama a garota.
Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.
— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.
Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.
Para uma fada loura.
com amizade
A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.
— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.
— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.
Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:
OЗНАКА — fada
Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.

Luísa Ducla Soares
(Há sempre uma estrela no Natal, Porto, Civilização Editora, 2006)

20/12/09

Com papas e bolos...


2010 aproxima-se.
Parece que, no próximo ano, a cidade do Porto vai receber uma visitada deste senhor, como compensação por ter sido privada do barulho e do fumo dos aviões do Red Bull Air Race.
Duma maneira ou de outra, o objectivo é o mesmo: enquanto os portuenses olharem para o céu esquecerão o que se passa na terra.
Venha o diabo e escolha...
Por falar em Papa, aqui fica mais um dos «Versos sueltos de cada día», do poeta Rafael Alberti.

Hablamos del carbón, del petróleo, del alma.
Todo está agonizando lentamente.
Mas para el Papa, en cambio,
las llamas del inferno no agonizan,
son imperecederas.

Árvore de Natal

Era el Árbol de Noel,

arrancado de los bosques.

en medio de la ciudad,

apagado por el día

encendido por la noche,

y dentro de una semana

seco y muerto para siempre.

Poema de Rafael Alberti

06/12/09

Administração Obama recusa assinar proibição das minas terrestres


O executivo norte-americano decidiu não assinar uma convenção internacional que proíbe as minas terrestres, revelou o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly, afirmando que a administração Obama acabou recentemente de reapreciar a questão e decidiu não mudar a política da administração Bush.
Segundo a Campanha Internacional para a Proibição das Minas Terrestres, as minas terrestres causaram 5.197 mortes conhecidas no ano passado, sendo crianças um terço das vítimas.

"Determinamos que não seríamos capazes de atender às nossas necessidades de defesa nacional nem nossos compromissos de segurança para com nossos amigos e aliados se assinássemos essa convenção", disse o porta-voz Ian Kelly.

"Este governo realizou uma revisão política e decidimos que nossa política de minas terrestres continua em vigor", disse Kelly a jornalistas, antes de uma conferência em Cartagena (Colômbia) sobre o tratado antiminas.

PETIÇÃO EM FAVOR DE ANTONIO TABUCCHI

O escritor italiano António Tabucchi, ex-embaixador da Itália em Portugal, estudioso e divulgador da Língua Portuguesa e autor de obras como «Afirma Pereira», está a ser perseguido pelo regime berlusconiano.
A liberdade de expressão está ameaçada na Itália.
O presidente do senado italiano, Renato Schifani, pediu-lhe em tribunal a quantia exorbitante de 1.350.000 euros como indemnização por um artigo publicado no «Unità».

Para ler e assinar a petição, clicar sobre a foto

20/11/09

UMA EDIÇÃO DE LÉNINE HÁ 80 ANOS

Entre os livros de que somos depositários (o plural refere-se à minha família), contam-se os três tomos cujas capas abaixo se reproduzem.
Em 1929, foi editado em Lisboa «O Imperialismo, Estádio Supremo do Capitalismo», obra de referência escrita por Lénine uma dúzia de anos antes.
Foi publicado em três tomos com o preço de capa de 2$50 cada um.
Nas páginas 63 e 64 do segundo tomo, no capítulo intutalado «A partilha do mundo entre as grandes potências» pode ler-se:
"Portugal oferece-nos o exemplo uma forma diferente de dependencia financeira e diplomática coincidindo com a indepedencia política. Portugal é um Estado soberano. Mas, de facto, está há mais de dois séculos, desde a guerra da sucessão de Espanha (1700-1740), sob o protecturado britanico. A Inglaterra defendeu Portugal e as suas colónias para fortificar as suas posições contra a Espanha e a França. Recebeu em troca vantagens comerciais, privilegios para as suas importações de mercadorias, e sobretudo de capitais, em Portugal e nas colonias portuguesas, o direito de usar dos portos e dos estabelecimentos insulares de Portugal, dos seus cabos telegraficos, etc. - (Schilder, I, pp.160 e 161).
Houve sempre, entre pequenos e grandes Estados, relações deste género. Mas, na epoca do imperialismo capitalista, tornam-se um sistema geral, um elemento essencial da política de partilha do mundo um dos aneis da cadeia das operações do capital financeiro mundial."
Ultrapassado?



15/11/09

El Lissitzky

"Bate os brancos com a cunha vermelha"

Este cartaz, é uma das obras marcantes do construtivismo russo, movimento artístico iniciado nos primeiros anos de Revolução Soviética.

Foi concebido por El Lissitzky, (1890-1941), como instrumento de propaganda na guerra contra o exército branco da contra-revolução, em 1920.

Os construtivistas concebiam as suas pinturas e esculturas mais como construções do que como representações, criando tensões e equilíbrios entre formas geométricas, que acentuavam o movimento no espaço.

Através da criação de objectos artísticos de propaganda e mobilização de energias colectivas, inovaram, de forma radical e comprometida, a comunicação entre as artes e uma sociedade que vivia, nesses anos, as mais mais profundas transformações que a humanidade produziu no século XX.

Dos artístas dessa geração (El Lissitsky, Rodchenko, Tatlin, Malevich, o poeta Mayakovsky, o cineasta Eisenstein...) se pode dizer que, esses sim, derrubaram muros.

14/11/09

IMAGENS DO MEU PASSADO 3

Realizou-se em 21 e 22 de Janeiro de 1978 o 1.º Congresso da UEC.
Continuo a achar que o lema foi uma boa escolha:
A ESCOLA E A VIDA NO CAMINHO DE ABRIL


IMAGENS DO MEU PASSADO 2


Encontro de Delegados da UEC, realizado em 6 de Junho de 1976.


IMAGENS DO MEU PASSADO 1

Com este título, publiquei, em Outubro de 2008, esta imagem da capa da 1.ª declaração da União dos Estudantes Comunistas.
Hoje encontrei a 2.ª. Aqui fica também. Foi editada em 1975 e era vendida por 2$50.

11/11/09

COMUNISTAS: ELES SOMOS ASSIM

10 de Novembro de 1979 - 10 de Novembro de 2009
Com a divulgação deste filme, pretendo assinalar o 30.º aniversário da fusão da UEC e da UJC e da fundação da Juventude Comunista Portuguesa.
Os jovens comunistas de todas as idades somos assim...
Perigosamente parecidos com os mais humanos dos seres humanos.

07/11/09

REVOLUÇÃO DE OUTUBRO (em 7 de Novembro de 1975)

O meu amigo dos tempos de liceu, Jorge Aragão, publicou no seu bloghistorias a fotografia e o artigo - que abaixo republico - ilustrando e narrando um episódio ocorrido no Liceu Alexandre Herculano.
Corria o ano lectivo de 1975/76, estávamos já no Novembro em que os chacais se preparavam para o ajuste de contas que levaria à prisão alguns dos militares de Abril.
No seu artigo, o Jorge Aragão diz que aquela era «uma época em que tudo parecia possível», mas não se fica pelo saudosismo e afirma que «aprender com os erros e lutar por uma sociedade mais igualitária é uma urgência».
Pois é! É nesta época, no presente que nos é dado viver, que nos compete tornar possível o que parece impossível e manter abertas as bandeiras que transportamos na memória.
Como lhe disse no comentário que deixei no seu blog, orgulho-me de ter sido um dos militantes da UEC que alinharam, naquela aventura, ao lado dos esquerdistas.
Outros foram mais ponderados (ou calculistas) e não embarcaram num acto que acusaram de aventureirismo. Onde estão agora?
É com muita alegria (e alguma saudade) que transcrevo as palavras deste velho amigo da esquerda pura.
Em 7 de Novembro de 1975 um grupo de alunos do Liceu Alexandre Herculano resolveu comemorar o aniversário da Revolução Soviética e hasteou durante algum tempo a bandeira vermelha na varanda.
Tal facto resultou numa contra-manifestação da ala direita que nessa altura já andava a levantar cabelo ( o 25 de Novembro estava próximo) e para evitar que a bandeira fosse arreada, o pessoal entrincheirou-se na sala que dava acesso à varanda, gorando as intenções.
O caso ficou feio e só a intervenção da Dra Palmira, uma professora respeitada e querida por todos, acabou com a séria hipótese de confronto, negociando uma solução de compromisso em que a bandeira ficaria por mais algum tempo e seria depois retirada.
Como o mais importante estava feito, lá acabamos por concordar e o assunto resolveu-se de forma relativamente pacífica.
Interessante foi um comunicado posterior do MRPP que criticava o " renegado"Angelo por ter colocado no poste a gloriosa bandeira do Movimento em conluio com os sociais fascistas (alguns colegas ligados ao PCP). Na verdade o dito Ângelo tinha saído dos MRs e foi a casa buscar uma enorme bandeira que tinha desses tempos, enrolou a parte das letras amarelas da organização do Camarada Arnaldo de Matos (e do Cherne Barroso, da justiceira Misetsung, etc) e foi esse pano vermelho que flutuou ao vento, do qual guardei a foto histórica que coloco em cima, já um bocado descolorida mas nem por isso menos interessante.
Agora que se comemoram os 92 anos da Revolução de Outubro, lembro estes momentos únicos de uma época em que tudo parecia possível.
E por falar da Revolução, bem que me parece que uma nova revolta está na ordem do dia, numa altura em que cada vez mais as desigualdades sociais se notam e não pára de crescer a exploração a que estamos todos sujeitos por uma minoria detentora do poder.
Aprender com os erros e lutar por uma nova sociedade mais igualitária é uma urgência.

06/11/09

Por falar em muro...

Quanto mais não seja, porque, nestes dias, as televisões e jornais do poder repetem até à nausea a sua propaganda uniformizada, não resisto a apresentar aqui uma versão diferente.
O texto que se segue é um excerto dum artigo de William Blum, que pode ser lido, na íntegra e com referências às fontes, em

Dentro de poucas semanas é de esperar que muitos dos meios de comunicação ocidentais virem as suas máquinas de propaganda para comemorar o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, no dia 9 de Novembro de 1989. Serão exibidos todos os clichés da Guerra-Fria sobre O Mundo Livre vs a Tirania Comunista e será repetido o conto simples de como apareceu o muro: Em 1961, Berlim Leste, comunista, construiu um muro para impedir que os seus cidadãos oprimidos fugissem para Berlim Oeste e para a liberdade. Porquê? Porque os comunas não gostam que as pessoas sejam livres, conheçam a "verdade". Que outra razão poderia haver? Primeiro que tudo, antes de o muro ser construído havia milhares de alemães de Leste que passavam para ocidente para ir trabalhar todos os dias e depois regressavam a Leste ao fim da tarde. Portanto, não estavam obviamente a ser presos no leste contra a sua vontade. O muro foi construído principalmente por duas razões:
1- O ocidente estava a prejudicar o Leste com uma vigorosa campanha de recrutamento de profissionais e trabalhadores especializados da Alemanha de Leste, que tinham sido educados à custa do governo comunista. Isto acabou por levar a uma grave crise de mão-de-obra e de produção no Leste. Referindo-se claramente a isto, o New York Times noticiou em 1963: "Berlim Oeste ressentiu-se economicamente do muro com a perda de cerca de 60 mil trabalhadores especializados que saíam diariamente das suas casas em Berlim Leste para os seus locais de trabalho em Berlim Oeste".
2- Durante os anos 50, os guerreiros-frios americanos na Alemanha Ocidental instituíram uma campanha feroz de sabotagem e subversão contra a Alemanha de Leste destinada a fazer descarrilar a maquinaria económica e administrativa deste país. A CIA e outros serviços americanos de informações e militares recrutaram, equiparam, treinaram e financiaram grupos e indivíduos activistas alemães, do ocidente e do leste, para efectuarem acções que percorressem o espectro desde o terrorismo até à delinquência juvenil, tudo o que tornasse difícil a vida do povo da Alemanha de Leste e enfraquecesse o seu apoio ao governo, tudo o que denegrisse os comunas.
Foi um empreendimento fantástico. Os Estados Unidos e os seus agentes utilizaram explosivos, incêndios, curto-circuitos, e outros métodos para danificar centrais eléctricas, estaleiros, canais, docas, edifícios públicos, bombas de gasolina, transportes públicos, pontes, etc, fizeram descarrilar comboios de carga, ferindo gravemente trabalhadores; queimaram 12 carruagens de um comboio de carga e destruíram tubagem de ar comprimido de outros; utilizaram ácidos para danificar maquinaria fabril vital; puseram areia na turbina duma fábrica, fazendo-a paralisar; deitaram fogo a uma fábrica de telhas; promoveram greves de zelo em fábricas; mataram 7 000 vacas duma fábrica cooperativa de lacticínios através de envenenamento; acrescentaram sabão ao leite em pó destinado às escolas da Alemanha de Leste; estavam na posse, quando foram presos, duma grande quantidade do veneno cantárida que se destinava à produção de cigarros envenenados para matar importantes alemães de Leste; lançaram bombas de mau cheiro para interromper reuniões políticas; tentaram interromper o Festival Mundial da Juventude em Berlim Leste enviando convites falsificados, promessas falsas de alojamento e pensão grátis, notícias falsas de cancelamento, etc; efectuaram ataques aos participantes com explosivos, bombas incendiárias e equipamento de furar pneus; forjaram e distribuíram grande quantidade de senhas alimentares falsas para provocar a confusão, a escassez e a revolta, enviaram falsos avisos de impostos e outras orientações do governo e documentos para provocar a desorganização e a ineficácia na indústria e nos sindicatos… tudo isto e muito mais.
Durante os anos 50, os alemães de Leste e a União Soviética apresentaram queixas, repetidas vezes, aos antigos aliados dos soviéticos no ocidente e às Nações Unidas sobre actividades específicas de sabotagem e de espionagem e exigiram o encerramento dos gabinetes na Alemanha Ocidental que acusavam de serem responsáveis, e de que forneceram nomes e moradas. As suas queixas caíram em saco roto. Inevitavelmente, os alemães de Leste começaram a dificultar a entrada no país aos que provinham do ocidente.
Não nos esqueçamos que a Europa de Leste se tornou comunista por causa de Hitler que, com a aprovação do ocidente, utilizou-a como a via rápida para chegar à União Soviética e varrer o bolchevismo para sempre. Depois da guerra, os soviéticos decidiram fechar essa via rápida.
Em 1999, o USA Today noticiava: "Quando caiu o Muro de Berlim, os alemães de Leste imaginaram uma vida de liberdade em que os bens de consumo fossem abundantes e terminassem as dificuldades. Dez anos depois, uns espantosos 51% dizem que eram mais felizes com o comunismo".

05/11/09

Um livro de Ilse Losa

Há dias, descobri num alfarrabista do Porto (na travessa de Cedofeita) um livrinho de Ilse Losa, intitulado «Um artista chamado Duque».
Este título tem edições bastante mais recentes e coloridas, mas nesta edição vem acompanhado de outros dois contos: «Faísca conta a sua história», que tem como narrador um cão, e «Mosquito e o sr. Pechincha», uma interessante história de amizade, confiança, dúvidas sentimentais e profundo humanismo.
No conto que dá título ao livro, a história dum ponei é narrada através de diálogos entre a narradora e duas pessoas que viveram com o Duque.
Os 25 a quem li estes contos viveram algumas meias horas suspensos em emoções silencosas.
Julgo que, além da reflexão sobre os valores humanos comuns aos três contos, aprenderam alguma coisa sobre processos narrativos.
A edição é da Livraria Sampedro Editora e, embora não refira a data, descobri que é de 1966.
Apeteceu-me divulgar aqui as sugestivas ilustrações de Alexandra Losa.





04/11/09

ABC de 1901

Manuais escolares de Trindade Coelho há vários, mas este, pela curiosidade e pela beleza das ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro, parece-me que merece ser divulgado.
Cada página é envolvida por uma moldura minuciosamente decorada com temas diversos: a vinha e o vinho, a pesca, as obras, a escola, material de pintura e escultura, as ferramentas de carpinteiro e de ferreiro, os caminhos de ferro, instrumentos musicais, objectos da casa, a iluminação...
Foi editado em 1901 e vendia-se por 50 reis.
No entanto, «Vae de graça, em todo o caso, para o meu districto, o de Bragança, que é o mais pobre e infeliz de Portugal todo», conforme refere o autor, na página 16 da longa nota explicativa que constitui a segunda parte do livro.
Seguem-se, a título de exemplo, reproduções de quatro páginas.

03/11/09

Publicidade merecida

http://www.unicepe.com/

Porque esta é uma publicidade merecida, aqui se regista, com adaptações, um texto extraído de unicepe.blogspot.com

A Unicepe, Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto foi constituída em 1963, sem fins lucrativos, conseguindo ao longo do tempo, atingir alguns dos seus objectivos. Outros permanecem, outros surgirão.

Um dos propósitos da sua génese - manter a Unicepe como um LUGAR DE AFECTOS.

Nela podem encontrar-se não só livros, como também discos, revistas e um espaço para exposições.

Se é um dos nossos associados, apareça, porque há novidades que lhe agradarão.
Se ainda não é um dos nossos associados, associe-se - são inúmeras as vantagens, venha conhecê-las.

Todas as quartas Quartas-feiras de cada mês, das 21h30 às 23h, lembraremos um dos nossos sempre tão esquecidos poetas, com acompanhamento musical de um dos associados da Cooperativa e a participação de todos os interessados.

Novembro, dia 25 - Bocage - Fernando Ribeiro

Iremos à Lua



Iremos à lua
e mesmo mais longe
Lá onde a distância cega os telescópios
Mas quando é que sobre esta nossa terra
Ninguém mais terá fome?
Ninguém temerá um outro?
Ninguém humilhará ninguém?
Ninguém roubará a esperança de ninguém?
Se sou comunista
É porque respondi a esta pergunta.

Poema «IREMOS À LUA», de Nazim Hikmet
Escultura «HOMEM SOL», de Jorge Vieira