21/03/10

Mães, há só umas?


Milhares de manifestantes desfilaram, ontem em Washington, protestando contra as guerras no Iraque e no Afeganistão.
Sete dos manifestantes foram detidos, entre eles Cindy Sheehan, mãe dum militar norte-americano morto em combate, no Iraque, em 2004.
Em 2006, Cindy Sheehan participou no Fórum Social Mundial, realizado na Venezuela. Na ocasião, manifestou a sua admiração pelo presidente Hugo Chávez "pela sua integridade ao resistir aos Estados Unidos". (fonte)

Otto René Castillo

Poeta e guerrilheiro guatemalteco, nasceu em 1936 e, em 1954, iniciou um primeiro exílio em El Salvador.
Aos 19 anos, ganhou o Prémio Centro-Americano de Poesia, o que lhe possibilitou iniciar a publicação de seus poemas, marcados por uma profunda nostalgia da pátria e pela opressão do seu povo, nomeadamente, das comunidades indígenas.
Em El Salvador, participou na fundação do Círculo Literário Universitário, que tinha como lema “No hay estética sin ética”.
Em 1958 voltou à Guatemala, onde iniciou um curso de direito.
No ano seguinte, iniciou um curso de letras em Leipzig (República Democrática Alemã).
Ao fim de 3 anos, interrompeu a vida académica para integrar um grupo de cineastas europeus que filmavam curtas-metragens sobre a luta armada de libertação latino-americana.
Em 1964, Otto René de Castillo partilha a actividade clandestina da luta armada com a direcção dum teatro municipal. Capturado no ano seguinte, é-lhe imposto um novo exílio.
Nomeado, pelas organizações revolucionárias, representante da Guatemala no Comité Organizador do Festival Mundial da Juventude, que terá lugar na Argélia, viaja por vários países europeus e permanece alguns meses em Cuba.
Em 1966, regressa clandestinamente ao seu país para se incorporar as guerrilhas das Forças Armadas Rebeldes, já conhecido como poeta-guerrilheiro.
Em Março do ano seguinte, ferido em combate, é capturado pelas forças do governo e conduzido, juntamente com sua companheira Nora Paiz e com vários camponeses locais, para a base militar de Zacapa. Aí, depois de torturado e mutilado, Otto René Castillo acaba por ser queimado vivo.

Intelectuais apolíticos
Um dia,
os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem
simples
do nosso povo.
Serão perguntados
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente,
como uma fogueira frágil,
pequena e só.
Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
siestas
após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira
de chegar às moedas.
Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentiram de si,
quando alguém, no seu fundo,
dispunha-se a morrer covardemente.
Ninguém lhes perguntará
sobre suas justificações
absurdas,
crescidas à sombra
de uma mentira rotunda.
Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam a roupa,
os que manejavam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,
“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimava,
gravemente, a ternura e a vida?”
Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.
Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios.
Poema de Otto René de Castillo

18/03/10

PAZ SIM! NATO NÃO!

Assinei esta petição em www.pazsimnatonao.org/peticao/

Petição Ao Presidente da Assembleia da República

Assunto: Realização da Cimeira da NATO em Portugal

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) anunciou a realização de uma cimeira em Portugal, onde prevê rever o seu conceito estratégico no sentido de alargar o seu campo de actuação geográfica, como já sucede nos Balcãs, no Afeganistão e no Paquistão e os pretextos de intervenção.

A realização desta Cimeira em Portugal significa a confirmação do envolvimento do país nos propósitos militaristas deste bloco político-militar, que constituem uma ameaça à paz e à segurança internacional.

O empenhamento do governo português na NATO colide com princípios fundamentais inscritos na Constituição da República Portuguesa e na Carta das Nações Unidas, de que Portugal é signatário – soberania, independência, não ingerência, não agressão, resolução pacífica dos conflitos e igualdade entre Estados; abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração; desarmamento, dissolução dos blocos político-militares.

Preocupados com os objectivos e significado desta cimeira as e os abaixo-assinados expressam a sua oposição à realização da Cimeira da NATO em Portugal e aos seus objectivos belicistas e reclamam das autoridades portuguesas:

- A retirada das forças portuguesas envolvidas em missões militares da NATO

- O fim das bases militares estrangeiras e das instalações da NATO em território nacional

- A recusa da militarização da União Europeia, que a transforma no pilar europeu da NATO

- A efectiva realização de uma política externa portuguesa em consonância com os princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa e na Carta das Nações Unidas, incluindo a promoção de iniciativas em prol do desarmamento e da dissolução dos blocos político-militares.

www.pazsimnatonao.org/peticao/

O aniversário que não aconteceu

Oitenta e nove anos na vida de um partido político é algo de notável, sobretudo se se tiver em conta que 48 destes foram passados na mais rigorosa clandestinidade, com os seus militantes e dirigentes a terem de enfrentar perseguições, prisões e torturas. Por vezes assassinatos.
Apesar disto, as estações televisivas e as rádios nacionais não fizeram qualquer referência ao 89.º aniversário do PCP no dia em que se assinalava a efeméride – 6 de Março. Não tanto pelo que o PCP foi, mas pelo que é hoje e pela carga de futuro que a sua acção e as suas propostas transportam.
E nem precisavam de «inventar» matérias, pois o PCP realizou, nesse mesmo dia, um comício comemorativo, na Aula Magna, em Lisboa, ao qual compareceram mais de duas mil pessoas, fazendo desta a maior iniciativa partidária desse fim-de-semana. Nos noticiários desse dia, tal iniciativa simplesmente não aconteceu.
O breve registo de Jerónimo de Sousa sobre o PEC, recolhido por uma das estações de televisão, não compensa esse apagamento – sobretudo tendo em conta a intervenção realizada pelo Secretário-geral do PCP onde este abordou os principais problemas do País e do mundo, adiantou a análise do PCP sobre a actual situação política e apresentou um conjunto de propostas de ruptura e mudança para o País.
Aliás, está a tornar-se uma regra a falta de enquadramento e de contextualização das imagens que passam relativas às iniciativas do PCP. Nomeadamente a falta de informação sobre o local e o tipo de realizações, o que contribui para o esbatimento da visibilidade das iniciativas e realizações do Partido. Por vezes, os jornalistas dirigem-se às iniciativas apenas e só para recolherem depoimentos sobre o «assunto do dia».
Nos protestos enviados às direcções das estações televisivas, o PCP reclamou uma alteração de critériosde forma a que sejam garantidos os deveres de pluralismo e isenção a que estão obrigados. A começar, desde logo, pelos restantes comícios de aniversário do Partido. Um deles, realizado na Maia no dia 13, foi ignorado pelo Jornal de Notícias, um dos principais órgãos de informação no Norte do País. O mesmo que fez, aliás, no ano passado. Já o Público não comparece em qualquer iniciativa do PCP desde as eleições autárquicas.

06/03/10

6 de Março

Sobre a condenação de Arnaldo Otegi


«O líder independentista basco Arnaldo Otegi foi condenado esta terça-feira, em Madrid, a dois anos de prisão por «enaltecimento do terrorismo», disse fonte judicial. Arnaldo Otegi, ex-porta-voz do Batasuna, «braço político» ilegalizado da ETA, foi julgado em Janeiro por participar, em 2005, numa homenagem a José Maria Sagarduy, membro da organização separatista basca, que se encontra detido. O dirigente basco foi detido em Outubro por ter tentado, segundo a justiça, reconstituir a direcção do Batasuna, partido ilegalizado em Espanha desde 2003, devido às ligações com a ETA. Otegi foi ilibado dos crimes de associação e reunião ilícita, dos quais também estava acusado.» diario.iol
«O líder independentista basco Arnaldo Otegi foi condenado a dois anos de prisão por “apologia do terrorismo”, mais 16 anos de privação dos direitos civis, durante os quais ficará impedido de exercer cargos públicos ou ser eleito para funções públicas.» publico

Ilibado de acusações de "crime de associação e reunião ilícita" só pode significar que não foram encontrados quaisquer indícios de associação à ETA ou a outra actividade susceptível de ser considerada terrorista.
Dois anos de prisão e dezasseis anos de privação de direitos civis!
Alguém me explica por que não podem aplicar-se a este caso, ocorrido na "democrática" Espanha de 2010, as expressões PRESO POLÍTICO e PRESO POR DELITO DE OPINIÃO?

27/02/10

Como consertar o mundo

Não resisti a divulgar aqui esta imagem fábula que encontrei no http://www.antreus.blogspot.com/
Consertar o Mundo pensando no Homem...

26/02/10

Há um jornal diferente

Há cinco minutos, acabei de saber, pelo Avante!, que o Partido Comunista do Chile se encontra confrontado com uma situação de ilegalização.
Pinochet de novo!
O império contra-ataca!
Face ao choque desta surpreendente notícia, ocorrem-me, de imediato, duas interrogações:
1.ª Como foi possível só agora saber isto?
2.ª Que noticiário democrático se ENCRESPOU contra este atentado ao Partido de Neruda?
Entretanto, hoje, a Venezuela foi notícia de telejornal porque faltou a luz durante uma intervenção televisiva de Hugo Chavez.
Leio no Avante! que, naquele país, o salário mínimo vai aumentarr 25%.a partir de 1 de Março.
Critérios jornalísticos...

25/02/10

JOGO

Se
2 e 3 resulta 10
7 e 2 resulta 63
6 e 5 resulta 66
8 e 4 resulta 96
Então
9 e 7 resulta ?

Dois livros

Nas últimas semanas, este blogue tem andado um pouco abandonado.

Se há responsáveis pela minha menor motivação para aqui escrever, eles têm nomes: Manuel Loff e Howard Fast.
O historiador do Porto e o romancista americano são os autores de dois magníficos livros, que têm absorvido grande parte do meu pouco tempo livre.

"O NOSSO SÉCULO É FASCISTA - O Mundo visto por Salazar e Franco (1936 - 1945)" é o resultado duma vasta e profunda investigação, desenvolvida em arquivos nacionais e internacionais, sobre as relações entre os fascismos ibéricos e os outros fascismos europeus, no contexto da 2.ª Guerra Mundial.
"SPARTACUS" é um belíssimo romance sobre a famosa revolta de escravos do Império Romano. É impressionante (e perturbante) a actualidade tanto dos motivos da revolta dos explorados e como do cinismo dos exploradores. É uma edição da histórica colecção dos livros de bolso Europa-América.
Deixo aqui uma passagem:
«E na época de Spartacus contavam-se ainda muitas lendas que falavam dum passado em que todos os homens e mulheres eram iguais e em que não havia nem amos nem escravos e em que em que todos os bens eram propriedade comum. Esse passado remoto estava agora velado pela bruma do tempo. Era a idade de ouro, e tornaria a surgir outra vez.»

15/02/10

A MÃE, de Bertold Brecht

A MÃE

O Teatro Municipal de Almada apresenta no Porto, no Teatro Nacional São João, de 12 a 21 de Fevereiro, A Mãe, de Bertolt Brecht.

Tradução da peça e das letras das canções Yvette K. Centeno, Teresa Balté
Encenação Joaquim Benite
Direcção musical Fernando Fontes
Cenografia Jean-Guy Lecat
Figurinos Sónia Benite, Ana Rita Fernandes
Desenho de luz José Carlos Nascimento
Voz e elocução Luís Madureira
Assistência de encenação Rodrigo Francisco
Interpretação Alberto Quaresma, André Albuquerque, Carlos Gonçalves, Carlos Santos, Celestino Silva, Daniel Fialho, Laura Barbeiro, Luzia Paramés, Manuel Mendonça, Marco Trindade, Marques D’Arede, Miguel Martins, Paulo Guerreiro, Paulo Matos, Pedro Walter, Sofia Correia, Teresa Gafeira, Teresa Mónica
Produção Teatro Municipal de Almada

11/01/10

QUEBRA-CABEÇAS

Este é o mais autêntico quebra-cabeças.
Procura-se uma cabeça disponível para preenchimento de vaga em estátua do século passado.
«CADERNOSEMCAPA» tem a honra de facultar aos seus seguidores e a todos os leitores eventuais uma valiosa oportunidade para participarem na selecção, contribuindo, por esta forma, para a preservação e modernização de tão preciosa relíquia.
Para darem o vosso contributo, poderão manifestar as vossas preferências entre qualquer uma das ilustres cabeças abaixo apresentadas.
Poderão ainda apresentar outras propostas, devidamente fundamentadas.
Vamos pôr as cabeças a funcionar, com a criatividade e a seriedade que merece o formoso monumento.
“Cada cabeça sua sentença”.

09/01/10

SALGUEIROS

Para que no «cadernosemcapa» também se escreva sobre futebol, aqui fica um desafio desportivo (e vermelho).
Vamos lá ver quem descobre que poeta famoso escreveu este poema épico-desportivo.

SALGUEIROS
Quem não sabe que o Salgueiros
É o Benfica do Norte?
sim. Benfica até na cor
Da camisola vermelha.
Quem lhe quer, quer bem ao Povo,
À Justiça e à Liberdade,
E sente que esta cidade
Traz nas veias sangue novo.
Gente que sonha de noite
Mas que luta, ao Sol, de dia.
Quem junto dela se acoite
Aprende a amar a alegria.
Afinal, a Poesia
Nem sempre é filha da noite...
Em Ele perdendo, o pranto
Rebenta em todos os olhos.
E só deus conhece o quanto
Os homens acham de escolhos.
Mas se ganha, velhos, novos,
Unidos no mesmo abraço,
Riem, acertando o passo.
(Portugal é Portugal!)
Felizes daqueles Povos
Que vivem do mesmo ideal!
Jogadores do Salgueiros!
Fronte erguida, braço forte,
Rudes, simples, verdadeiros.
Quem não sabe que o Salgueiros
É o Benfica do Norte?

08/01/10

A luta pela Paz

Com cumprimentos aos autores e aos responsáveis pelas fontes, publica-se um texto de Pedro Guerreiro retirado de http://www.odiario.info/, ilustrado com uma imagem de http://www.resistir.info/

Passado quase um ano sobre a eleição de Obama como presidente dos EUA, e apesar da imensa operação ideológica realizada em seu redor, é cada vez mais claro que a agenda estratégica e militarista da actual Administração norte-americana prossegue os mesmos objectivos fundamentais que a anterior.
Nem mesmo a tentativa de branqueamento deste facto – que, por exemplo, a entrega do prémio Nobel da paz representou – consegue esconder que a evolução da situação internacional aí está a demonstrar a escalada intervencionista e de guerra em que os EUA e seus aliados estão apostados.
A Administração Obama propôs e fez aprovar para 2010 o maior orçamento militar da história dos EUA, que será superior às despesas militares somadas de todos os restantes países do mundo. Um orçamento militar que cresce na medida directa do aprofundamento da crise no centro do capitalismo.
Os EUA ampliam e reforçam a sua rede de mais de 750 bases militares e a presença das suas frotas navais pelo mundo, instrumentos da sua estratégia de controlo, de desestabilização e de guerra, designadamente e com particular expressão e significado na América Latina, onde, igualmente, continuam o seu criminoso bloqueio a Cuba, e em África, onde estão em curso dinâmicas recolonizadoras.
A Administração norte-americana e seus aliados recrudescem a guerra e o rol de brutal destruição e de sofrimento na Ásia Central e no Médio Oriente, reforçando as tropas ocupantes no Afeganistão, intensificando as suas agressões no Paquistão e prosseguindo a ocupação do Iraque, reafirmando o seu apoio e conivência com a estratégia israelita de perpetuação da brutal ocupação da Palestina.
A Administração Obama e seus aliados apontam como objectivo reajustar a NATO às suas actuais necessidades (e contradições), como instrumento de agressão e de guerra contra os que de alguma forma ousam contrariar ou opor-se às suas ambições imperialistas, defendendo a sua soberania e independência nacional. Estando a adopção de um retocado «conceito estratégico» para a NATO agendada para uma cimeira a realizar em Portugal, em Novembro de 2010.
Isto é, a Administração Obama, para além de não ter significado qualquer mudança de fundo ou viragem na política externa norte-americana, procura preservar, a todo o custo, designadamente utilizando o seu poderio militar, o papel de potência hegemónica que os EUA continuam, todavia, a representar no sistema capitalista mundial.
Como temos sublinhado, a crise do capitalismo comporta em si graves perigos para a paz e para os povos do mundo. Tal como no passado, o imperialismo será tentado a resolver pela via do incremento da exploração e da guerra a crise que incessantemente gera e para a qual se mostra incapaz de encontrar solução.
A autêntica «fuga em frente» por parte do imperialismo significa exploração e opressão, a negação das mais elementares necessidades e direitos dos povos, a contínua destruição do ambiente, o ataque à paz e, mesmo, à sobrevivência da humanidade.
Neste quadro, aos comunistas, aos democratas e amantes da paz, está colocada a exigente tarefa de mobilizar os trabalhadores e os povos para a luta contra a exploração, pela defesa soberania dos povos, pela paz.
A luta pela paz é um marco decisivo e inultrapassável para o fortalecimento e alargamento de uma frente anti-imperialista que inverta a actual correlação de forças nas relações internacionais e crie condições para a prossecução de alternativas de progresso e justiça social, para o socialismo.
A defesa da paz e a solidariedade para com os povos em luta contra a agressão imperialista marcará, de forma significativa, o ano de 2010.

03/01/10

Maria Eugénia Cunhal

Assinalando os 50 anos da Fuga de Peniche, o Diário de Notícias publica hoje uma interessantíssima entrevista com a poetisa Maria Eugénia Cunhal.


Trata-se dum depoimento de profundo valor humano e histórico que merece ser lido.


Registe-se, no entanto, a infeliz escolha do subtítulo «Os políticos actuais não têm estatura», quando o que a entrevistada disse foi:
"Não é por serem de hoje ou serem de ontem, é por serem os políticos que são. Acho que não é pela época que os políticos têm uma estatura e depois a deixam de ter, mas sim pelas pessoas que são e por aquilo que fazem pelo seu povo ou não fazem."
POEMA DE MARIA EUGÉNIA CUNHAL
SPARTACUS

Em cada hora
Em cada dia
Século após século
os homens arremessam o teu nome ao vento
e dele saem dardos, punhais, espadas
e dele saem pombas e flores ensanguentadas
De cada letra um filho
De cada som um eco
Teu nome-profecia
Teu nome vinho-novo
que ao terceiro dia há-de ressuscitar
nas veias do meu povo
Teu nome
que mil vezes tem sido agrilhoado
Teu nome sangue-mel
nos lábios do carrasco uma esponja de fel
Teu nome-escravo
Teu nome-espectro
fantasma de terror na noite de algozes
temido como as vozes que clamam no deserto
Teu nome-salmo
escrito em cada corpo morto
em cada cruz erguida
Teu nome-espiga
que se transforma em pão
Teu nome-pedrada construção do mundo
que será o fruto do teu gesto
Teu nome
em cada gesto do esvoaçar das asas
da gaivota presa
Teu nome
vela-acesa na catedral da esperança
do altar-homem
Teu nome
em cada grito
em cada mão
Teu nome-sinfonia
que há-de explodir com a alegria
de um átomo liberto
Spartacus!
Teu nome-irmão.

In “As Mãos e o Gesto”
Editorial Escritor

23/12/09

Um conto de Luísa Ducla Soares

O Primeiro Natal em Portugal
É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas,
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.
ОЛiВЕДЬ — lápis
ЗОШИТ — caderno
КИГА — livro
ШКОЛА — escola
Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:

Irina, Irina, Irina,
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina.
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.

Na Ucrânia deixou tantos amigos...
Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?
Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
— Pareces uma fada!
E foge logo a correr.
Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!
De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
— Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
— Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
— Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
— Pai, pai! — grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
— Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
— Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
— Força! Coragem! Está quase...
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.
Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
— Como é que o doutor se chama?
— Anton.
— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
— Manhã nós visitar! — exclama a garota.
Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.
— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.
Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.
Para uma fada loura.
com amizade
A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.
— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.
— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.
Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:
OЗНАКА — fada
Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.

Luísa Ducla Soares
(Há sempre uma estrela no Natal, Porto, Civilização Editora, 2006)

20/12/09

Com papas e bolos...


2010 aproxima-se.
Parece que, no próximo ano, a cidade do Porto vai receber uma visitada deste senhor, como compensação por ter sido privada do barulho e do fumo dos aviões do Red Bull Air Race.
Duma maneira ou de outra, o objectivo é o mesmo: enquanto os portuenses olharem para o céu esquecerão o que se passa na terra.
Venha o diabo e escolha...
Por falar em Papa, aqui fica mais um dos «Versos sueltos de cada día», do poeta Rafael Alberti.

Hablamos del carbón, del petróleo, del alma.
Todo está agonizando lentamente.
Mas para el Papa, en cambio,
las llamas del inferno no agonizan,
son imperecederas.

Árvore de Natal

Era el Árbol de Noel,

arrancado de los bosques.

en medio de la ciudad,

apagado por el día

encendido por la noche,

y dentro de una semana

seco y muerto para siempre.

Poema de Rafael Alberti

06/12/09

Administração Obama recusa assinar proibição das minas terrestres


O executivo norte-americano decidiu não assinar uma convenção internacional que proíbe as minas terrestres, revelou o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly, afirmando que a administração Obama acabou recentemente de reapreciar a questão e decidiu não mudar a política da administração Bush.
Segundo a Campanha Internacional para a Proibição das Minas Terrestres, as minas terrestres causaram 5.197 mortes conhecidas no ano passado, sendo crianças um terço das vítimas.

"Determinamos que não seríamos capazes de atender às nossas necessidades de defesa nacional nem nossos compromissos de segurança para com nossos amigos e aliados se assinássemos essa convenção", disse o porta-voz Ian Kelly.

"Este governo realizou uma revisão política e decidimos que nossa política de minas terrestres continua em vigor", disse Kelly a jornalistas, antes de uma conferência em Cartagena (Colômbia) sobre o tratado antiminas.

PETIÇÃO EM FAVOR DE ANTONIO TABUCCHI

O escritor italiano António Tabucchi, ex-embaixador da Itália em Portugal, estudioso e divulgador da Língua Portuguesa e autor de obras como «Afirma Pereira», está a ser perseguido pelo regime berlusconiano.
A liberdade de expressão está ameaçada na Itália.
O presidente do senado italiano, Renato Schifani, pediu-lhe em tribunal a quantia exorbitante de 1.350.000 euros como indemnização por um artigo publicado no «Unità».

Para ler e assinar a petição, clicar sobre a foto

20/11/09

UMA EDIÇÃO DE LÉNINE HÁ 80 ANOS

Entre os livros de que somos depositários (o plural refere-se à minha família), contam-se os três tomos cujas capas abaixo se reproduzem.
Em 1929, foi editado em Lisboa «O Imperialismo, Estádio Supremo do Capitalismo», obra de referência escrita por Lénine uma dúzia de anos antes.
Foi publicado em três tomos com o preço de capa de 2$50 cada um.
Nas páginas 63 e 64 do segundo tomo, no capítulo intutalado «A partilha do mundo entre as grandes potências» pode ler-se:
"Portugal oferece-nos o exemplo uma forma diferente de dependencia financeira e diplomática coincidindo com a indepedencia política. Portugal é um Estado soberano. Mas, de facto, está há mais de dois séculos, desde a guerra da sucessão de Espanha (1700-1740), sob o protecturado britanico. A Inglaterra defendeu Portugal e as suas colónias para fortificar as suas posições contra a Espanha e a França. Recebeu em troca vantagens comerciais, privilegios para as suas importações de mercadorias, e sobretudo de capitais, em Portugal e nas colonias portuguesas, o direito de usar dos portos e dos estabelecimentos insulares de Portugal, dos seus cabos telegraficos, etc. - (Schilder, I, pp.160 e 161).
Houve sempre, entre pequenos e grandes Estados, relações deste género. Mas, na epoca do imperialismo capitalista, tornam-se um sistema geral, um elemento essencial da política de partilha do mundo um dos aneis da cadeia das operações do capital financeiro mundial."
Ultrapassado?



15/11/09

El Lissitzky

"Bate os brancos com a cunha vermelha"

Este cartaz, é uma das obras marcantes do construtivismo russo, movimento artístico iniciado nos primeiros anos de Revolução Soviética.

Foi concebido por El Lissitzky, (1890-1941), como instrumento de propaganda na guerra contra o exército branco da contra-revolução, em 1920.

Os construtivistas concebiam as suas pinturas e esculturas mais como construções do que como representações, criando tensões e equilíbrios entre formas geométricas, que acentuavam o movimento no espaço.

Através da criação de objectos artísticos de propaganda e mobilização de energias colectivas, inovaram, de forma radical e comprometida, a comunicação entre as artes e uma sociedade que vivia, nesses anos, as mais mais profundas transformações que a humanidade produziu no século XX.

Dos artístas dessa geração (El Lissitsky, Rodchenko, Tatlin, Malevich, o poeta Mayakovsky, o cineasta Eisenstein...) se pode dizer que, esses sim, derrubaram muros.

14/11/09

IMAGENS DO MEU PASSADO 3

Realizou-se em 21 e 22 de Janeiro de 1978 o 1.º Congresso da UEC.
Continuo a achar que o lema foi uma boa escolha:
A ESCOLA E A VIDA NO CAMINHO DE ABRIL


IMAGENS DO MEU PASSADO 2


Encontro de Delegados da UEC, realizado em 6 de Junho de 1976.